Projeto WASH lamenta a morte do pesquisador, cientista e educador egípcio-brasileiro
Morreu na noite de quarta-feira (26), aos 80 anos, em decorrência de um câncer, Mohamed Ezz El-Din Mostafa Habib, professor do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp. O sepultamento ocorreu nesta quinta-feira, às 15h no Cemitério Parque das Acácias, em Campinas. Em razão da pandemia de Covid-19, a cerimônia foi restrita a 40 pessoas, entre família e amigos. Habib deixa a esposa, Sawsan Mohamed Ahmed, os filhos Nader, Mona e Shadi, e a neta Dora. Deixa também um valioso legado em setores nos quais foi protagonista ao longo de sua vida na docência, pesquisa e administração universitária, preservação ambiental, desenvolvimento sustentável, extensão universitária e diálogo intercultural.
Foi um dos fundadores do PT em Campinas e professor titular do Instituto de Biologia da Unicamp por cerca de 40 anos. Foi também diretor do IB, pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários e coordenador de Relações Institucionais e Internacionais, todos na Unicamp, e presidente do Instituto de Cultura Árabe do Brasil, entre outras atividades.
“São sempre difíceis momentos como este, de falecimento de um colega, amigo, companheiro de ideias e ideais. O professor Mohamed nos deixa, mas ficam conosco não somente as lembranças dos momentos compartilhados, ficam também suas diversas realizações, que marcam a história da Unicamp”, lamenta o reitor da Unicamp, professor Antonio José de Almeida Meirelles. “Meus sentimentos a seus familiares e amigos, a quem expresso a profunda tristeza de nossa comunidade por esta perda”, completa.
Mohamed Habib foi pioneiro, nos anos 1980, em identificar e denunciar o uso indiscriminado de agrotóxicos para combater o bicudo nas plantações de algodão. No programa Memória Científica, produzido pela TV Unicamp em 2006, ele conta sobre o desafio de contestar a posição do governo federal, que propunha erradicar a praga com aplicações aéreas de veneno químico altamente tóxico. Cita que até 1986 era o único pesquisador de controle biológico no Brasil e que suas pesquisas mostraram que era suficiente que o governo adotasse o controle biológico para combater a praga do algodão, medida que a ciência demonstrou ser a forma correta.
“Mohamed foi conselheiro do CTI Renato Archer durante a minha gestão à frente da instituição. Foi um momento de grande aprendizado para mim”, afirma o físico Victor Pellegrini Mammana, coordenador do Projeto WASH junto ao CNPq. “Ele foi, sem dúvida, uma das figuras mais importantes mundialmente na questão do controle biológico de pragas, uma pessoa diferenciada como cientista, além de sua ativa participação política.”
“É com grande pesar que informamos o falecimento de nosso querido irmão Prof. Mohamed Habib, ontem à noite”, informa a Sociedade Islâmica de Campinas em nota divulgada nesta quinta-feira. “Cada alma experimentará a morte. E, apenas no Dia da Ressurreição, sereis compensados com vossos prêmios. Então, quem for afastado do Fogo (infernal) e introduzido no Paraíso, certamente, triunfará. E o que é a vida terrena senão um prazer ilusório?”, diz a nota.
Nascido no Egito, ele se formou em Engenharia Agrícola pela Universidade de Alexandria. Chegou ao Brasil em 1972, e disse que a vinda à nova terra lhe trouxe riqueza pessoal e profissional. Publicou mais de 200 trabalhos científicos divulgados em periódicos nacionais e internacionais, além de colaboração em livros e apostilas didáticas nas áreas de Entomologia, Ecologia Aplicada, Controle Biológico e Microbiano. Também orientou pelo menos 40 teses de Mestrado e Doutorado, defendidas por alunos da Unicamp e outras universidades brasileiras.
Muhammad Habib foi ativista político e cultural e defensor das questões árabes no Brasil, especialmente a causa palestina, por meio de projetos, artigos e seminários políticos e culturais, seja por meio de seu trabalho na universidade ou no Instituto de Cultura Árabe.
Em entrevista à rede TVT ele afirmou que a “justiça é manca, injusta e antiética e patrimônio da elite”. E acrescentou que “conhecimento é patrimônio público de toda a humanidade.”
“Mohamed sempre foi uma referência política, intelectual e como ser humano. Um homem que conviveu em dois mundos tão distintos. Nascido e crescido no Egito e depois vindo para o Brasil, onde se tornou uma referência acadêmica e política. Era uma pessoa que unia esses mundos na sua postura de forma muito generosa. Uma perda irreparável”, coloca Pedro Tourinho, médico e ex-vereador pelo PT.
Entre os muitos prêmios e homenagens que recebeu ao longo de sua vida, foi reconhecido em Campinas com os títulos de “Grande Defensor da Ecologia” (1984) e “Cidadão Campineiro” (1999). Em 2000, recebeu o prêmio “Personalidade Brasil 500 Anos”, concedido pelo Centro Empresarial Cultural do Estado de São Paulo. Foi homenageado também, em 1998, pela Secretaria Nacional dos Direitos Humanos da Presidência da República, com a medalha “Direitos Humanos, o Novo Nome da Liberdade”.
Texto: Delma Medeiros / com Portal da Unicamp
Revisão: Victor Mammana