Em conversa sobre educação, tecnologia, emprego e pandemia, o Deputado Federal por São Paulo nos lembra da importância do ser humano no centro dos avanços tecnológicos.
Eleito Deputado Federal pelo Estado de São Paulo, em 2002, pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Vicente Paulo da Silva, conhecido como Vicentinho, cumpre seu quinto mandato consecutivo, atualmente. Em sua atuação parlamentar, Vicentinho foi eleito por 14 vezes como um dos 100 parlamentares mais atuantes do Congresso Nacional, pelo DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar), e ficou entre os dez melhores por dois anos seguidos (2011 e 2012) no prêmio Congresso em Foco, na modalidade “melhores deputados”, “defesa da Previdência Social, dos servidores públicos” e “internet”.
Com um histórico de luta contra as desigualdades, foi um dos fundadores e presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores). Em 2014, foi eleito como o primeiro parlamentar negro na história do Congresso Nacional a exercer a liderança de uma bancada.
Em conversa com o Programa WASH, ele conta sua visão sobre os tempos em que vivemos e sobre sua prioridade “contra a política do ódio e da morte”.
Seu mandato atual é regido por cinco eixos: o principal deles é a luta em defesa dos direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores. O segundo eixo, contra todo tipo de preconceito e discriminação; o terceiro eixo, da cultura inclusiva e libertária; o quarto, da defesa do meio ambiente e, como quinto eixo, o mandato participativo.
Vicentinho, apelido oriundo dos companheiros de trabalho na Mercedes-Benz, nasceu em 8 de abril de 1956, no município de Campo Redondo, no Estado do Rio Grande do Norte. É casado, pai de sete filhos e avô de quatro netos.
Bárbara Beraquet: Sobre o primeiro eixo que rege seu mandato, a defesa dos trabalhadores e das trabalhadoras: temos uma realidade de desemprego que foi acirrada com a pandemia. E os dados mostram que, no ano passado, eram mais de 13 milhões de desempregados no Brasil. Na sua visão, como a questão da tecnologia pode ajudar um pouco nesse cenário?
Vicentinho: Para você ter uma ideia, na região do ABC (paulista), os trabalhadores de carteira assinada e, portanto, com direito a férias, décimo terceiro salário, fundo de garantia, aviso prévio, com convenções coletivas em 1989, eram 363 mil. Antes da pandemia, no ano passado, esse número tinha caído para 180 mil, implicando que a maioria dos trabalhadores, hoje, não tem sindicato, não tem direitos, não tem acordo coletivo, não tem férias, não tem décimo terceiro. Eu, inclusive, estou criando, aqui na Câmara, a Frente Parlamentar em defesa dos trabalhadores da economia informal; já consegui as assinaturas suficientes.
Nós temos dois tipos de desemprego. Um deles é o desemprego conjuntural, em função de tudo que nós estamos vivendo. O outro é o desemprego estrutural: as empresas cada vez mais produzindo, com cada vez menos gente. Os empregos novos que surgem são empregos precarizantes, por exemplo, os trabalhadores em bicicletas, em motos e veículos, que trabalham em aplicativos. Sou muito comprometido com eles, inclusive, tenho feito seminários e audiências públicas para ver como se discute um mínimo de dignidade para esses jovens trabalhadores nas bicicletas, para os homens e mulheres trabalhadores nos carros.
Nós teremos que viver um novo tempo, não tem outro jeito. A forma do emprego, como foi o emprego clássico, com várias profissões que desapareceram, substituídas pelas máquinas, mudou e precisamos buscar outros meios. Esses outros meios implicam no fortalecimento e na regulamentação das várias funções; implicam também no fortalecimento de cooperativas, no fortalecimento do micro e pequeno empreendedor e da economia solidária.
Precisamos buscar esses caminhos no âmbito da política, devemos fazer a grande luta contra os efeitos malditos do capitalismo, que é internacional.
Nós estamos no momento em que, por exemplo, o movimento sindical tem pensado muito e refletido muito. Eu participei do Congresso da CUT (Central Única dos Trabalhadores) no ano retrasado, em que a CUT decidiu incluir, nos seus quadros, os trabalhadores da economia informal, o que é um salto de qualidade. E estamos buscando experiência internacional, para ver o que pode ser feito.
O ideal é – eu sempre disse isso – não podemos fazer como foi feito no século XVIII-XIX, e quebrar as máquinas (Vicentinho refere-se ao Ludismo), mas se nós fôssemos uma sociedade justa, se a humanidade tivesse um sistema justo para o mundo, quanto mais avanço tecnológico, mais ficaríamos com nossa família, mais passearíamos, mais nos envolveríamos na cultura, no lazer – é isso que nós queremos, benefícios para o ser humano. Para nós, esse seria o melhor de todos os resultados… Infelizmente, os avanços não são feitos para o ser humano; assim como fizeram com o avião, e o transformaram em arma de guerra; como descobriram o poder das forças nucleares e fizeram, disso, uma arma de guerra, por causa do sistema social sob o qual nós estamos submetidos. Aí, é sonho de nova sociedade, a gente não desanima, viu?
Bárbara Beraquet: A pandemia veio abruptamente. Como lidar com as questões que ela trouxe: do desemprego, da informalidade, das crianças fora das salas de aula e da retomada das aulas? Como o senhor acredita que os deputados, e o executivo estadual e municipal, podem ajudar na organização para lidar com a pandemia?
Vicentinho: Tenho uma experiência própria, porque sou professor de Direito em uma faculdade em São Bernardo do Campo (SP). Lá, no ano passado, começamos a fazer aula remota, constatamos muitas dificuldades. Esses alunos não tinham equipamentos e condições de acompanhar online. Muitos deles não tinham como realizar as provas e pediam para estender os prazos, para que pudessem responder, pegar o telefone, o computador de outra pessoa, ou um celular mais adequado… Imagine isso para o Brasil inteiro! E a presença, a afetividade, a afetuosidade, o calor humano, o contato e o olhar direto, é o ideal. Paulo Freire já falava isso: até mais importante do que o conteúdo é a afetividade. Isso, senti e sinto falta, inclusive, eu imagino que os alunos, também.
A consequência dessa pandemia foi drástica em todos os sentidos – claro que o pior de todos é a morte. As decisões que Câmara e Congresso tomaram, de viabilizar verbas diretamente para os municípios e para os estados, foram decisões importantes para o enfrentamento do coronavírus. Agora, estamos discutindo a possibilidade de não dependermos do Poder Federal para que as vacinas cheguem a todos os municípios.
O home office é um exemplo que vai continuar, pós-pandemia, no novo normal. Essas reuniões virtuais, muitas continuarão sendo feitas assim. Aprendemos uma nova modalidade e parte permanecerá.
Agora, o grave problema é a previsão de que o PIB cairá no mínimo 10% na América Latina e, quando ele cai assim, quem paga é o povo. Hoje, os jovens são 50% desempregados, e esse número aumentará.
Por isso, os aposentados relatam o seu sofrimento. Depois de trabalharem a vida inteira, podendo desfrutar com seus companheiros, têm que procurar um outro trabalho para ajudar o filho que está desempregado.
A pandemia trouxe dores e sofrimentos, mas também traz esse aprendizado. O melhor de tudo seria que nós tivéssemos a capacidade de atingir a nossa gente para o caminho da solidariedade. A solidariedade entre os pobres é muito possível, é e será fundamental para enfrentar esse novo desafio.
Bárbara Beraquet: A questão racial também faz parte dos seus eixos de atuação. Fale-nos sobre ela.
Vicentinho: Esta luta que nós desenvolvemos pela igualdade racial poderia ser uma luta em defesa da igualdade de oportunidade para os brancos, se os brancos fossem os humilhados, se os brancos fossem a maioria e estivessem colocados nas suas piores condições de discriminação. Por isso, a questão é pela igualdade racial, desde a época da escravidão aos dias de hoje, à violência que, hoje, atinge a nossa juventude pobre e negra, à falta de oportunidade igualitária, nos dias de hoje, no trabalho. A discriminação que vem do preconceito tem causado dores.
A luta pela igualdade racial é uma luta das mais importantes, por isso, é que aprovamos o Estatuto da Igualdade Racial. Por isso, aprovamos, aqui, a lei de cotas, embora o projeto de cotas seja uma lei temporária, porque, quando houver igualdade, não se precisará mais dela. Essa é uma luta que eu tenho com muito carinho e faz parte da minha vida.
Bárbara Beraquet: Na sua longa trajetória na Câmara, que avanços e retrocessos o senhor consegue identificar em Educação e Tecnologia?
Vicentinho: Cresceu bastante o ensino a distância. Quando ele é implantado para suprir a necessidade de o aluno ter acesso à educação, é extremamente positivo. Não quando o ensino a distância é usado para que as empresas de educação ganhem com facilidade, sem professor ou com um professor para mil alunos.
Do ponto de vista da questão tecnológica, posso dizer que estamos perdendo em termos de condições humanas e sociais. Estamos perdendo muito. Daí o WASH ajudar a investir nesse aspecto, investir na formação, e outros tantos programas que existem também para incluir o avanço no controle da dominação das novas tecnologias.
O WASH me anima e, portanto, espero que o conselho do meu mandato continue ajudando, porque é direcionado para, em primeiro lugar, os alunos da escola pública. Em sendo escola pública, são alunos pobres, alunos oriundos das comunidades, que precisam dominar as técnicas modernas e com uma visão solidária, com a visão desenvolvimentista humanista. A ciência é para que todos tenham acesso, e não apenas para alguns, porque, quando todos têm acesso, a ciência pode ser desenvolvida para promover o bem. Quando é apenas para um ou outro… é para controlar os demais. Não queremos assim. Vida longa ao WASH e um profundo respeito. Tomara que vocês cresçam, cresçam e cresçam.
Redação: Bárbara Beraquet
Revisão: Nádia Abilel de Melo