Paulo Sérgio de Camargo Filho é físico, doutor em Ensino de Ciências e Educação Matemática pela Universidade Estadual de Londrina, com estágio pós-doutoral na Universidade de Harvard – EUA. É daqueles professores que você trata todos os temas da Educação e a conversa com ele até pode ficar longa, mas vale cada minuto dedicado para ouvi-lo. Ele foi o convidado do Programa WASH, para encerrarmos 2020 de forma muito especial, porque discutimos um pouco de tudo: iniciação científica, pesquisa, educação não formal, formação profissional, alternativas para tornar o ensino, “de áreas mais duras”, mais atrativo para os alunos, Cultura Maker, entre outros temas.
Camargo Filho atua como docente e pesquisador na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e Universidade Estadual de Londrina (UEL), sendo coordenador do PPGEN (Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências Humanas, Sociais e da Natureza), um programa de mestrado profissional em Ensino. É, também, pesquisador-líder do STEM Education Research Group, naUTFPR. “Desde 2019, tenho a posição de Associate in Applied Physics na Universidade de Harvard, no grupo de pesquisa em Educação do Prof. Eric Mazur”, conta o professor.
Sobre formação docente e a realidade STEAM, ele destaca que “o estabelecimento de uma nova cultura educacional não é uma tarefa simples e que os investimentos no capital humano devem ser incessantes”.
Nesta conversa, ele ainda dá dicas de leitura para quem quer conhecer mais sobre cultura Maker e ressalta “o mais importante princípio do manifesto Maker para suas aulas: divirta-se!”. Acompanhe, agora, o diálogo na íntegra!
WASH: Ao longo da história, um tema comum no debate sobre formação sempre foi a necessidade de aproximação da Universidade com o Mercado de Trabalho. Em uma universidade tecnológica, essa questão é superada de forma mais simples, uma vez que a formação é mais profissionalizante. O Sr. poderia comentar essa vantagem e a importância da UTFPR, que foi pioneira, enquanto Universidade Tecnológica?
Camargo Filho: um dos grandes diferenciais da UTFPR é a formação orientada para a atuação profissional em um mundo cada vez mais conectado e um mercado de trabalho global, cada vez mais exigente. Isto se manifesta em inúmeras ações como programas de dupla diplomação, mobilidade internacional, programas qualificados de extensão universitária e empresas juniores, que propiciam o empreendedorismo e o protagonismo estudantil. Outra grande vantagem é a crescente valorização da pesquisa aplicada em áreas estratégicas de C&T e em Educação STEM – Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, com um forte diálogo internacional e impacto regional.
WASH: O Sr. atua nesta área STEM e acumula experiências tanto na Educação Básica, quanto na Superior. Como o Sr. avalia o ambiente tecnológico na escola moderna? Quais são os desafios a serem superados nesta área, sobretudo na escola pública?
Camargo Filho: É fulcral a criação de ambientes imersivos, criativos e tecnológicos na escola para o desenvolvimento de habilidades, que possibilitem uma melhor vivência em sociedade e melhor empregabilidade. De acordo com The Future of Jobs Report 2020, com ausência de esforços pró-ativos, a desigualdade provavelmente será acentuada pelo duplo impacto, tanto da tecnologia e quanto pela recessão pandêmica. É notório, ainda segundo o relatório, que o ritmo de adoção de tecnologia deve permanecer constante e pode, inclusive, acelerar em algumas áreas. Nesse contexto, a escola tem o imenso desafio de se ajustar rapidamente às demandas formativas dos atuais alunos, uma vez que estamos cercados por conjunto complexo de tecnologias que permitem a fusão do mundo físico, digital e biológico.
WASH: A Educação STEM já é uma realidade para a maioria dos alunos nos ensinos Médio e Técnico ou o caminho, ainda, é muito longo?
Camargo Filho: É evidente que existe uma desconexão entre a ciência que é ensinada (em seus formatos, conteúdos, metas etc.) e a própria sociedade para qual esse ensino é direcionado. No entanto, existem ótimas iniciativas que valorizam a pesquisa e inovação educacional, que contribuem para o desenvolvimento de uma sociedade proficiente e capacitada nas áreas abrangidas pelo STEM, além de formar alunos e professores que são capazes de desenvolver as competências do século XXI em diferentes ambientes e níveis de ensino. Essas iniciativas ainda se dão por meio de projetos-piloto, na aplicação dos resultados de pesquisas em nível de mestrado e doutorado, mas podem facilmente ganhar escala com o investimento não somente em novos métodos, mas, sobretudo, em novas metas, em uma nova cultura educacional ancorada em um sólido conhecimento em Ciência e Tecnologia.
WASH: E quanto à formação dos professores para atender essa nova realidade STEM? Essa formação/atualização está acontecendo? Eu questiono isso, porque, durante a pandemia, a gente percebeu essa lacuna, que dificultou muito a vida dos professores e, também, dos estudantes que dependiam das tecnologias para ter sequência no seu aprendizado.
Camargo Filho: O estabelecimento de uma nova cultura educacional não é uma tarefa simples. Ainda mais agravada com uma pandemia e crise econômica. No entanto, deve ser incessante nosso processo de investimento em capital humano. Em meio à crise, fomos surpreendidos com inúmeras notícias positivas, casos de sucesso que merecem ser compartilhados. A formação continuada de professores em nível de pós-graduação se manteve na maior parte dos programas de pós-graduação da área de Ensino no Brasil e ressaltou, ainda mais, a importância das ferramentas tecnológicas. Acredito que todos nós aprendemos uma coisa nova, que continuará sendo útil e será incorporada ao nosso novo normal. Os grupos de pesquisa se mantiveram ativos e eventos ao redor do mundo modificaram seus formatos presenciais para virtuais, o que permitiu um diálogo construtivo em relação ao STEM, uma verdadeira quebra de paradigma.
WASH: O Sr. é coordenador local do Programa WASH na UTFPR. Como deve acontecer a implantação do Programa WASH, o envolvimento dos professores, dos estudantes, a definição de bolsistas e os trabalhos com a iniciação científica nas escolas públicas, em 2021?
Camargo Filho: O processo de implementação do WASH, na UTFPR, deve favorecer um campo de pesquisa que permitirá conceber, projetar, implementar e operar a linguagem de programação, ambientes de aprendizagem ricos em tecnologia e pedagogias inovadoras na educação STEM, que possibilitem promover uma aprendizagem bem-sucedida em vários níveis, incluindo a formação de professores. Para isso, devemos incentivar a criação de produtos e processos educacionais, por meio de uma abordagem integrada que requer uma conexão intencional entre essas quatro áreas de estudo e o processo crítico de criatividade, denominado STEAM. Isto configura-se como uma maneira de aproveitar os benefícios do STEM e completar o pacote, integrando esses princípios nas artes e por meio delas. Acreditamos que o STEAM leva as abordagens STEM para o próximo nível: permite que os alunos conectem seu aprendizado nessas áreas críticas com práticas artísticas, criatividade, princípios de design, para fornecer todo o ambiente de aprendizagem à sua disposição.
WASH: E sobre esse tema, como o Sr. encara a realização da iniciação científica, logo no ensino fundamental? E como estimular, cada vez mais, esse modelo?
Camargo Filho: As recentes revoluções em áreas como a Computação, Genética e Automação, por exemplo, provocaram intenso debate e impacto social, que vem contribuindo para despertar o interesse público sobre esses assuntos. Essas revoluções sinalizam a necessidade de repensarmos a formação das crianças na educação básica, em especial nos anos iniciais e ensino fundamental. Segundo os marcos referencias do Programme for International Student Assessment (PISA), Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, as necessidades formativas dos alunos têm sido cada vez mais enfatizadas e direcionadas para a compreensão dos fenômenos naturais e sociais, para o entendimento das relações que se estabelecem entre a ciência, a tecnologia e suas implicações na sociedade, no intuito de prepará-los para reflexão, discussões e tomadas de decisões concernentes aos impactos produzidos pelos avanços da ciência e da tecnologia na atualidade. Nesse aspecto, a iniciação científica assume papel preponderante por favorecer aos estudantes a apropriação de conhecimentos, além de oportunizar discussões acerca da prática social. No entanto, é preciso estar atento para acompanhar os processos de aprendizagem que envolvem: saber como os conceitos adquirem seus significados e suporte empírico. A conjugação dessas habilidades demanda da criança o desenvolvimento de mecanismos complexos de raciocínio, que passa pelo desenvolvimento de aptidões analíticas capazes de reunir informações científicas e pela compreensão da ciência como campo de investigação.
WASH: Uma das suas áreas de atuação é o Ensino de Física; outra linha, também trabalhada, é o conhecimento de Matemática, e essas são áreas que os estudantes apontam como as de maior dificuldade no aprendizado. Como tornar essas áreas mais atrativas para os alunos, sobretudo nos anos iniciais de formação, para que a gente possa sair do discurso do “eu não gosto”? Interessante destacar o papel motivador do professor nesta mudança.
Camargo Filho: Da forma como a Física e a Matemática são, tradicionalmente, ensinadas ninguém deve gostar mesmo (risos)! Além disso, para pesquisadores como O’Sullivan, é muito difícil para um professor ser criativo se estiver seguindo um currículo prescrito e tiver pouco ou nenhum espaço para sua própria contribuição criativa em sua prática docente. Os programas de estudo, os livros didáticos e o material de apoio ao professor são extremamente importantes para ajudar a estruturar e apoiar o aprendizado, mas, também, precisam permitir a criatividade profissional do professor. Existem estratégias contemporâneas de ensino que propiciam um melhor engajamento dos estudantes. Tais estratégias estão baseadas em aprendizagem por equipe (team-based learning), por projetos (projec-based learning), por jogos (game-based learning), e mediadas por metodologias ativas de aprendizagem que conferem não apenas benefícios motivacionais, mas também pretendem impulsionar a aprendizagem de conteúdos científicos e tecnológicos para níveis mais significativos e ser um meio crucial para promover a iniciação ao desenvolvimento epistemológico do inquirir científico e de instigar os estudantes em habilidades cognitivas, de atitudes e práticas.
WASH: Qual o papel da educação não formal, também, na contribuição dessa mudança?
Camargo Filho: A Educação não formal tem ganhado força recentemente, não como um substituto da educação formal – fundamental para o crescimento da pessoa, mas pela capacidade de complementá-la e flexibilizá-la. Essa modalidade de educação está aberta a qualquer idade, origem e interesse pessoal. Além disso, é relativamente livre, voluntária, com mais abertura para aplicação de métodos inovadores de ensino e seu objetivo final não é um diploma, mas sim puro aprendizado. Existem espaços institucionalizados, como museus, fab-labs, makerspaces, planetários, zoológicos e não-institucionalizados, como praças públicas, parques, lagos, entre outros. Esses ambientes ajudam o indivíduo a crescer e amadurecer, tanto a nível pessoal quanto social. Ao desenvolver as habilidades de cada indivíduo, você aumenta sua autoestima, autonomia, liderança, criatividade, responsabilidade, entre outros. A capacidade de aprender e descobrir por conta própria desenvolve uma atitude crítica saudável de seu entorno.
WASH: Outro tema que parece sensível a sua atuação é a Cultura Maker. Destaque para o nosso público a importância dessa cultura e por que as escolas devem adotar, cada vez mais, esse modelo e implantar espaços makers?
Camargo Filho: Makerspaces são espaços físicos de acesso aberto, onde uma comunidade compartilha ferramentas, máquinas e conhecimento para dar forma e vida a uma ideia. Projetar, modificar, construir, testar ou reparar são atividades comuns realizadas nesses ambientes. Como resultado, esses espaços podem se tornar um elemento estratégico para a inclusão da aprendizagem autônoma e social, desenvolvendo a competência da criatividade e inovação por meio de pensamentos divergentes. Por trás de cada ambiente Maker, há o desenvolvimento de uma cultura que enfatiza o aprendizado através do fazer (learning by-doing), que promove a aprendizagem em rede, liderada e compartilhada por pares, motivada pela diversão e autorrealização. A essência dessa cultura Maker foi capturada em 10 princípios fundamentais por Hatch em seu livro “The Maker Movement Manifesto: Rules for Innovation in the New World of Crafters, Hackers, and Tinkerers”, que recomendo a leitura!
WASH: Como esses temas têm sido trabalhados nas pesquisas, em andamento, na Universidade – quais os caminhos que vêm sendo apontados? A PPGEN oferece mestrado profissionalizante, os pós-graduandos têm buscado a pesquisa em STEM, quais as contribuições e produtos destas pesquisas para as escolas e a sociedade?
Camargo Filho: O PPGEN constitui-se como um Mestrado Profissional em Ensino, reconhecido com nota 4 pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), do Ministério da Educação. O PPGEN situa-se dentro da estrutura da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (PROPPG/UTFPR) e atende a um sistema multicampi composto por Londrina e Cornélio Procópio. Ao longo dos anos, o programa tem formado professores-pesquisadores com capacidade e autonomia para propor inovações metodológicas e práticas pedagógicas, com o uso de novas tecnologias no processo de ensino e aprendizagem, que possam impactar no cenário local, regional, nacional e/ou internacional em Ensino de Ciências Humanas, Sociais e da Natureza. Os pesquisadores formados estão aptos para gerar pesquisas e produtos educacionais com inovações conceituais e metodológicas e para usar tecnologias avançadas que possam servir para melhorar a qualidade do ensino e da aprendizagem na área de concentração do programa: Ensino, Ciências e Novas Tecnologias.
Em especial, no STEM Education Research Group, que sou pesquisador-líder, existe o desenvolvimento de pesquisa translacional em ensino, valorizando a inovação. No momento, os focos principais de pesquisa são: Educação 4.0; Metodologias Ativas de Aprendizagem; Criatividade; Neurociência; Teorias Contemporâneas de Inteligência Humana; Inteligência Artificial, Robótica e Linguagem de Programação; Teoria da Percepção e Affordances; Multimodos e Múltiplas Representações; Processos de Aprendizagem na Educação Básica e Superior. Para além disso, estamos desenvolvendo uma gama de produtos e processos educacionais: Makerspaces; Design Thinking; Technology-Enhanced Active Learning (TEAL); Peer Instruction; Just in-time Teaching; Flipped Classroom; Project-based Learning; Team-Based Learning; Game-based Learning; Ambientes Imersivos focados na Ciência e Tecnologia.
WASH: Fica aberto o espaço para que o Sr. aborde algum tema no processo de ensino-aprendizado que, eventualmente, não destacamos.
Camargo Filho: O domínio da Ciência e Tecnologia não compete mais apenas para futuros cientistas e engenheiros, é uma preparação essencial para todos os estudantes. Os professores podem apoiar a criatividade e a inovação por meio da modelagem de hábitos criativos, valorizando a importância crítica das perguntas, tanto as próprias quanto as feitas pelos alunos, tratando os erros como oportunidades de aprendizado e incentivando os alunos a assumir riscos sensatos na sala de aula ou fora dela, dando aos alunos tempo suficiente para concluir seu trabalho, assim como organizar tarefas, cuidadosamente, para fornecer o nível adequado de desafio. Por fim, ressalto o mais importante princípio do manifesto Maker para suas aulas: divirta-se!
Textos: Denise Pereira
Revisão: Nádia Abilel de Melo
Fotos: Arquivo Pessoal Paulo Sérgio de Camargo Filho
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