Pesquisa de bolsista do WASH ensina conceitos de eletrônica a estudantes do Fundamental

Quando ele se autodefine, o estudante Gustavo de Oliveira Martins, 19, diz que é um jovem desenvolvedor que “busca sempre aprender mais e ajudar quem está do seu lado a aprender também”. E complementa: “o que eu não gosto é de preguiça”. E a gente percebe que não é só discurso, quando acompanha o extenso trabalho que ele desenvolveu em 2019 como bolsista do Programa WASH na Iniciação Científica, no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Paraná (IFPR), Campus Londrina, depois de seis meses como voluntário do Programa.

Martins é autor do projeto de pesquisa “Conceitos de Eletrônica aplicados ao cotidiano das crianças – ou resumidamente, Eletrônica do Cotidiano”, trabalho que teve a orientação do professor Fernando Accorsi. Na pesquisa, ele buscou mostrar e dar respostas ao funcionamento de muitos equipamentos ou circuitos complexos para crianças do Ensino Fundamental. Quando a gente vê a lista de equipamentos que ele trabalhou com os alunos, compartilhando como essas tecnologias operam: são sensores de som, de ré, luminosidade de postes, sensores de presença, de cor e lixeira inteligente, não dá para não ficar surpreso.

Os circuitos foram apresentados e discutidos com crianças de 8 a 10 anos, nos anos iniciais do ensino fundamental da Escola Municipal Maestro Roberto Pereira Panico, também, em Londrina. Esses conteúdos atendem às competências esperadas para a área da Ciência da Natureza, previstas na BNCC – Base Nacional Comum Curricular para esta faixaetária.

Ele comenta que acha fascinante a ideia de transformar “consertos” em brincadeira e que, desde criança, sempre se interessou por eletrônica.

Nesta conversa, o bolsista conta todos os passos da pesquisa e sua experiência na Iniciação Científica, que ele julga que foi determinante para a sua vida. “Acredito que me ajudou principalmente na contratação de meu primeiro emprego em uma empresa de desenvolvimento de software, aqui, em Londrina. Em minha entrevista, falei que participava de um projeto que visava ensinar lógica de programação para crianças do Fundamental e, mostrando as fotos e vídeos, eles ficaram fascinados com o projeto e com minha atuação nele”.

Vale conhecer a história e a pesquisa do Gustavo Martins! Acompanhem a conversa que, nós do WASH, tivemos com ele.

WASH: Você pode contar como foi a escolha do seu projeto, por que decidiu trabalhar com Eletrônica?

Gustavo Martins: Sempre achei fascinante a ideia de quando um brinquedo quebrar, você transformar seu “conserto” em uma brincadeira. E, desde criança, sempre me interessei por mexer com eletrônica, mesmo sem saber conceito algum. E esses conceitos foram se aflorando quando ingressei no projeto de Robótica Educacional, ofertado pelo IFPR – Campus Londrina. Então, ao entrar para o WASH, juntamente com a equipe, optamos por poder ensinar aos participantes do projeto um pouco sobre como funcionam diversos sensores e atuadores que se encontram presentes em seus cotidianos. E, por isso, elaboramos um plano com diversos projetos, com o intuito de despertar a curiosidade e o interesse por seguir ou pelo menos entender um pouco desta área tão importante para a humanidade.

Você tratou questões bastante complexas no seu trabalho com um público muito novo, crianças até o 5º ano, como foi esse desafio? Aproximar o tema (eletrônica) com as questões e elementos do cotidiano facilitou?

Gustavo Martins: “Sem analogias, não há formação de conceitos” (Hofstadter e Sander). Como os autores apresentam, quando se utiliza de analogias, há uma maior assimilação e ligação neural; além de aproximar um conceito tido como abstrato para aquela criança.

Ademais, podese dizer que utilizamos um conceito de alfabetização eletrônica, inspirado na metodologia de Paulo Freire, em que buscamos trazer um projeto que faria sentido para a criança e que fizesse parte de sua convivência e seu espaço inserido. Claro, nem sempre foi possível explicar todos os conceitos; porém, o simples fato de, ao final da aula, um aluno levantar a mão e falar:  “ah!!!! É por isso que o poste acende de noite”. Isto não tem preço.

Transformar o aprendizado em experiência (botar a mão na massa) ajudou ainda mais os alunos a encontrarem respostas aos seus questionamentos?  Qual foi a receptividade dos alunos durante as oficinas?

Gustavo Martins: Ajudou, sim! Creio que, com a prática, conceitos teóricos podem ser mais esclarecidos. Além disso, os alunos mostraram-se bem animados em poder manipular os componentes eletrônicos. Porém, a falta de equipamentos para todos alunos acabou transformando alguns projetos, que poderiam ser feitos individualmente ou em grupos, em apenas um mostruário das tecnologias.

Você consegue avaliar que o método que você utilizou para esse aprendizado pode funcionar melhor do que a forma como você aprendeu esses mesmos conceitos na escola?

Gustavo Martins: Sim e não. Creio que eles estão tendo uma oportunidade que eu não tive em meu Ensino Fundamental e, com certeza, vai ser um diferencial em seus estudos. Porém, gosto bastante da forma em que aprendi na Robótica do IFPR, em termos a metodologia de PBL (Problem Base Learn), com maior autonomia, que, juntamente com a proatividade, possibilita a  criação de pensamento baseado nos problemas em que temos que enfrentar e solucionar nas competições.

Você buscou dar respostas ao funcionamento de muitos equipamentos ou circuitos para os alunos. Quando a gente olha aquela foto no início do seu trabalho e vê que você abordou sensores de som, de ré, luminosidade de postes, sensores de presença, de cor, a lixeira inteligente, o leitor comum fica surpreso com tanto ensinamento em tão pouco tempo? Ter atuado como voluntário no Programa WASH, durante meses, permitiu desenvolver todo esse conjunto de ferramentas?

Gustavo Martins: Acredito que foi um trabalho muito bem-sucedido e que, mesmo com algumas noites mal dormidas para finalizar o projeto semanal, entregamos o nosso melhor nos projetos, podendo alcançar os nossos principais objetivos. Quando estava como voluntário, entregava os projetos no prazo; porém, acredito que, com o auxílio da verba de bolsista, pude me dedicar ainda mais para a qualidade dos projetos, uma vez que me sentia pressionado para não decepcionar nossos alunos.

Quais foram as maiores dificuldades dos alunos?

Gustavo Martins: Entender o comportamento de elétrons e como eles se comportam em um circuito. Muitas vezes, para eles eram apenas cabos ligados em lugares para fazer o projeto funcionar, sem entender o fluxo definitivo do circuito.

Explica pra gente também o Jogo do Foguete e qual foi o aprendizado passado aos alunos?

Gustavo Martins: Na verdade, o Jogo do Foguete foi realizado, concomitantemente, com o jogo do Scratch, que também era o jogo do foguete. A principal ideia era mostrar que podíamos fazer jogos também com eletrônica. Além disso, apresentava conceitos da matriz educacional do ensino fundamental, como o conceito de ângulos, que eram aplicados no foguete enquanto ele se movimentava.

Você participou do desenvolvimento dos jogos? Você acredita que esse tipo de ferramenta poderia ser adotada com mais frequências nas escolas? E por que ainda não são, na sua opinião? No seu trabalho, você quis mostrar o que existe por trás das tecnologias. Eu te pergunto: e como a tecnologia te ajudou na construção das ferramentas?

Gustavo Martins: Participei do desenvolvimento de todos os jogos, assim como a equipe inteira. Acredito que pode sim ser adotado pelas escolas; porém, da maneira como realizamos, em que nos dedicamos para apresentar uma excelente proposta com uma sequência de ensinamentos lógicos, que cria uma linha de raciocínio que facilita o aluno entender a lógica de programação por trás do jogo. Creio que as demais escolas não implementam essa metodologia, pois faltam principalmente uma estrutura de equipamentos e profissionais qualificados que possam juntar a pedagogia com a computação.

Como foi a sua relação com o seu orientador, no âmbito do compartilhamento dos conhecimentos e desenvolvimento do projeto?

Gustavo Martins: Foi, simplesmente, incrível! O Fernando Accorsi, além de ter um vasto conhecimento de conceitos da Informática, possui uma didática excelente. Com certeza, me ajudou a me desenvolver nesses dois aspectos; e ele sempre foi tão presente e compreensivo em todos os projetos semanais.

Qual foi o impacto de desenvolver um projeto de Iniciação Científica para a sua vida escolar e para o futuro?

Gustavo Martins: Acredito que me ajudou principalmente na minha contratação de meu primeiro emprego em uma empresa de desenvolvimento de software, aqui, em Londrina. Em minha entrevista, falei que participava de um projeto que visava ensinar lógica de programação para crianças do Fundamental e, mostrando as fotos e vídeos, eles ficaram fascinados com o projeto e com minha atuação nele.

Para você, o que significa para as crianças entender o funcionamento das coisas?

Gustavo Martins: Para mim, significa tarefa cumprida.

O seu projeto teve publicação na imprensa, teve um peso no reconhecimento de seu trabalho, trouxe algum resultado?

Gustavo Martins: Creio que a publicação agregou no valor do trabalho e deixou-o mais completo. E, com certeza, gerou resultados positivos, principalmente na divulgação do projeto.

De alguma forma, você pretende dar andamento ao que fez na Iniciação Científica, pretende ter uma carreira acadêmica, científica, voltada para a pesquisa ou Ciência?

Gustavo Martins: Com certeza, quero continuar envolvido em projetos e seguir os estudos em Ciência da Computação.

Texto: Denise V. Pereira

Revisão: Nádia Abilel de Melo

Fotos: Arquivo pessoal – Gustavo de Oliveira Martins