Existem barreiras entre o homem e o computador em tempos tão tecnológicos quanto o momento no qual vivemos? O WASH convidou uma das mais renomadas especialistas do Brasil para dar essa resposta. Nesta entrevista, Maria Cecília Calani Baranauskas, professora Titular da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), colaboradora no Instituto de Computação, onde continua a desenvolver sua carreira acadêmica, também membro do Conselho Diretor do Instituto para Tecnologias da Informação em Educação (IITE) da UNESCO (desde 2018), abordou esse e outros temas.

Baranauskas, que tem experiência na área de Ciência da Computação, com ênfase em Metodologia e Técnicas da Computação, atuando principalmente em temas como a interação humano-computador, semiótica organizacional, interface de usuário, design de sistemas computacionais interativos em diversos domínios (social, educacional, de trabalho), destaca que essas barreiras mudaram de natureza e lugar. “De barreiras físicas iniciais, passamos a nos preocupar com barreiras à usabilidade e inteligibilidade de interfaces de sistemas, barreiras à acessibilidade (independente dos sentidos do usuário), e assim por diante….”, responde. Mas destaca que, atualmente, “as barreiras que mais me preocupam são as que envolvem questões da ética e responsabilidade social; por exemplo, a captura de dados do usuário ou de suas ações no sistema, de forma inadvertida e silenciosa, sem seu conhecimento ou concordância explícitos”.

Nesta conversa, ela ainda conta sua experiência com a Linguagem Logo e o aprendizado, rememora o seu contato com Seymour Papert e suas teorias e discorre sobre como atrair mais mulheres para áreas de Ciências, Matemática e das tecnologias.

Acumulando títulos como a Cátedra Ibero-Americana Unicamp-Santander Banespa para estudar problemas de acessibilidade em engenharia de software na Universidad Politécnica de Madrid, Espanha (2006-2007); agraciada com o Diploma do Mérito Educacional “Prof. Darcy Ribeiro”, em 2006; com o ACM SIGDOC Rigo Award, em 2010;  o I Prêmio Carreira de Destaque em IHC, em 2015; e com o Reconhecimento Acadêmico “Zeferino Vaz” em 2016; Maria Cecília compartilhou também sua atuação no IITE – Instituto para Tecnologias da Informação da Unesco, como representante latino-americana.

Nossa entrevistada  tem graduação  em Ciência da Computação e em Matemática – Licenciatura (ambas concluídas em 1976, na Unicamp). Na mesma Universidade, concluiu seu mestrado em Ciência da Computação (1981) e doutorado em Engenharia Elétrica (1993) e fez seu pós-doutoramento no Semiotics Special Interest Group (SSIG), na Staffordshire University (School of Computing), em 2001; e no Applied Informatics with Semiotics (AIS) lab da University of Reading (Dept. of Computer Science) em 2002, no Reino Unido.  Vale a pena acompanhar nosso diálogo.

WASH: A Sra. foi uma das pioneiras na Linguagem LOGO no Brasil, ainda na década de 80, redigiu sua tese nesta área. Comente a importância da Linguagem LOGO para o Ensino de Matemática?

Profa. Maria Cecília: LOGO é uma linguagem de programação criada no final dos anos 1960, que representou uma mudança de paradigma para a época, em termos da sua facilitação para o entendimento dos construtos básicos de uma linguagem de programação de computadores (comandos, programa, algoritmo, etc.), e para a interação com computadores via interface gráfica. Essas características do LOGO fizeram dela uma linguagem de programação acessível às crianças…

No ensino de Matemática, a linguagem LOGO ficou muito conhecida por possibilitar entender conceitos da Geometria, a partir da construção visual de formas geométricas, por meio da programação de uma ‘tartaruga’ (representada por um pequeno triângulo) que, ao executar os comandos do programa, deslocava-se na tela deixando seu rastro.  Entretanto, mais do que aprender Geometria e interagir com computadores, LOGO possibilitava o acesso da criança ao pensamento matemático e ao seu próprio processo de aprender; ao ‘ensinar a tartaruga’ a fazer algo (ex. o desenho de uma figura geométrica ou uma ‘casinha’), escrevendo comandos e vendo esses comandos executados, ela tinha acesso de forma concreta a conceitos (ex. ângulos, deslocamentos) e a seu próprio processo de pensar sobre a tarefa em questão.  Em seu livro Mindstorms[1], Papert diz que o aprender a usar computadores pode mudar a maneira de as crianças aprenderem qualquer outra coisa.  Então, vejo sua importância para muito além do Ensino de Matemática ou de Computação, no processo de construir conhecimento, de aprender.

WASH: A Sra. também teve uma experiência com oficinas com educação digital em meados de 1978. Conte para a gente como foi e o que a Sra. lembra desse momento? E o que representou essa iniciativa com filhos de professores da Unicamp, quando essa questão era algo restrito às universidades?

Profa. Maria Cecília: Sim! Meu envolvimento com esse tema começou no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, época em que começamos a investigar como a interação de crianças com o computador se dava, utilizando a Linguagem LOGO em um terminal gráfico (GT40) ligado a um mainframe (PDP10) do Centro de Computação da UNICAMP. Nessa época, desenvolvi minha dissertação de Mestrado “Conceitos Geométricos através da Linguagem LOGO”, defendida no Instituto de Computação, em 1981.

Nessa época, os computadores eram ‘mainframes’, que ficavam em centros de processamento de dados, operados por técnicos e especialistas, para acesso dos professores e cientistas em terminais distribuídos nas várias unidades da Universidade. Em particular, tivemos acesso a um terminal gráfico, que servia de interface visual para a execução da Linguagem LOGO. Esse terminal ficava em uma salinha do Centro de Computação, onde pudemos organizar atividades com crianças. Como era um domínio muito desconhecido da maioria das pessoas (‘computação e criança’ parecia uma combinação até assustadora para alguns), conseguimos adesão de professores da UNICAMP para que seus filhos participassem de atividades com LOGO, programação, Geometria, e muito mais… (A propósito, alguns adultos ilustres estiveram  entre essas crianças, e fizeram coisas incríveis programando em LOGO e aprendendo não só Matemática). 

Essas atividades (oficinas), que no início eram restritas à pesquisa na Universidade e a um pequeno grupo de pesquisadores e alunos da Computação que participavam como assistentes de pesquisa, junto a outras iniciativas que começavam a acontecer em outras regiões do país, na minha visão, foram importante subsídio para movimentos nacionais da ‘Informática na Educação’, organizados pela Secretaria Especial de Informática[2] e posteriormente traduzidos no Projeto Nacional EDUCOM (em 1983) e todos os desdobramentos que temos hoje na área de Informática na Educação.

WASH: A Sra. acompanhou as teorias de Seymour Papert. Como a Sra destacaria essas teorias para o processo de Ensino-Aprendizagem? Teve algum contato direto com ele? Como foi e o que representou para sua carreira e atuação?

Profa. Maria Cecília: Quando Papert esteve na UNICAMP (1975), eu estava nos últimos anos do Bacharelado em Ciência da Computação e da Licenciatura em Matemática; fazia Iniciação Científica com o Prof. Fernando Curado, que levou o LOGO para a UNICAMP. Na época, eu estava estudando LOGO como linguagem derivada do LISP e querendo entender seu potencial para o ensino e aprendizagem de crianças.  Lembro-me do Papert deitado no gramado que havia em frente ao Instituto de Matemática (o que não é nada comum para nós Brasileiros, mas é corriqueiro em outros lugares do mundo) olhando para o céu como alguém que está enxergando seus próprios pensamentos…

As teorias dele faziam todo o sentido para mim, que estava me graduando em Ciência da Computação e em Matemática, e fiquei tão maravilhada com a Linguagem LOGO, suas possibilidades e a maneira de entender a construção de conhecimento que, ao terminar a graduação, iniciei o Mestrado nessa área. Sem dúvida, Papert deixou um grande legado, entre eles sua teoria do ‘construcionismo’ e a maneira ‘natural’ de aprender (no seu livro Mindstorms ele usa a escola de samba Brasileira para explicar o processo de aprender). 

O aprender fazendo e pensando sobre o que se faz, o ‘objeto para pensar sobre’ tiveram desdobramentos e são hoje muito visíveis em movimentos que acontecem atualmente na área de Educação com e sem tecnologia: o movimento  ‘Maker’, o DIY, a Aprendizagem Criativa, entre outros.  A própria Linguagem LOGO deixou sua marca em outras como a Scratch, por exemplo; e em suas comunidades de aprendizagem.

Em relação a minha carreira, em particular, posso dizer que meu trabalho nas áreas de pesquisa em Interfaces e Interação Humano-Computador (IHC), Informática & Educação, e o paradigma de Ciência,  que subscrevo, certamente foram influenciados pela experiência de aprendizado que comecei a construir à época do ‘LOGO’. 

 WASH: A Sra. tem graduação nas áreas de Matemática e Ciência da Computação, em tempos nos quais essas áreas ainda eram predominantemente um espaço masculino. Como atrair mais mulheres para áreas de Ciências, Matemática e das tecnologias?

Boa pergunta. Essas áreas ainda continuam sendo um espaço predominantemente masculino.  Mas acho cada vez mais importante o olhar feminino para o design de tecnologia e para as relações humanas com a tecnologia.  Teríamos que analisar porque essas áreas atraem menos as mulheres… penso que esse cenário poderá ser diferente (mais naturalmente equilibrado), quando tivermos, enquanto sociedade, uma visão diferente de mundo, em que a tecnologia se adeque melhor às necessidades e desejos humanos e não o contrário…

WASH: Como a Sra. avalia hoje o acesso ao mundo digital nas escolas, sobretudo na escola pública? E como o processo de aprendizagem tem incentivado alunos a buscarem mais soluções para os problemas, o que a Linguagem Logo propõe na sua essência?

Profa. Maria Cecília: O acesso ao mundo digital está acontecendo fora das escolas, independentemente de públicas ou privadas, no quotidiano dos alunos com celulares na mão, de maneira informal.  Penso que o ensino formal (nas escolas) se articula com o mundo digital de maneira ainda áspera; suavizar essa relação envolveria mudanças estruturais no formato da escola, adequando-a à contemporaneidade da tecnologia (e vice-versa); é um processo de gerações.  Uma referência interessante sobre essa questão da escola e tecnologia, para quem não conheceu Papert, é um debate dele com Paulo Freire que aconteceu na PUC-SP, em novembro de 1995[3].

Em tempos de pandemia, que estamos vivendo, com as escolas fechadas e o isolamento social necessário à mitigação da Covid-19 e do coronavírus, a sociedade e as escolas nela incluídas estão precisando se reinventar no uso das mídias digitais, para dar continuidade ao processo de ensino-aprendizagem. Certamente, haverá uma herança de aprendizado importante na consideração do mundo digital nas escolas, não apenas a educação a distância, reprodutora das práticas presenciais, mas uma educação mediada pelo mundo digital com inúmeras formas inovadoras de acesso e construção de conhecimento (por ex. outras formas de leitura colaborativa).

WASH: A Sra. assumiu recentemente (2018) uma vaga no IITE – Instituto para Tecnologias da Informação da Unesco, como representante latino-americana. O Instituto promove o uso das TICs na Agenda 2030 para Educação da Unesco. Como é o seu trabalho neste espaço e quais contribuições são possíveis trazer e aplicar por aqui?

Profa. Maria Cecília: Fui convidada a servir o Governing Board do IITE, que é um Conselho Diretor que administra o IITE, composto por 11 membros nomeados pelo Diretor Geral da UNESCO em uma distribuição geográfica. Os membros são escolhidos pela sua eminência na área e capacidade pessoal. (Primeiramente, fui convidada a candidatar-me para o GB.  A decisão final e nomeação dos membros é feita pelo Secretário Geral da UNESCO). 

O Conselho reúne-se pelo menos uma vez por ano e, sempre que necessário, no interesse do Instituto ou para as exigências de suas atividades.  Existem várias funções para o Conselho, entre elas determinar a política geral e a natureza das atividades do Instituto no marco da política geral da UNESCO, levando em conta as obrigações decorrentes do fato de o Instituto ter sido estabelecido no âmbito da UNESCO.    Recentemente, intermediei esforços de compartilhamento de recursos educacionais junto à força-tarefa Combating COVID-19: Together We Are On The Move!, na qual o UNESCO IITE, em cooperação com seus parceiros globais dos países afetados e de outros países, está se unindo para ações conjuntas imediatas.

WASH: Em um mundo extremamente tecnológico, é possível afirmar que hoje ainda existam barreiras significativas entre homens e computadores? Quais seriam?

Profa. Maria Cecília: Boa pergunta. O ‘mundo extremamente tecnológico’ dá a impressão que sumiram as barreiras humano-computador, não é? Mas eu diria que elas apenas mudaram de lugar e de natureza… de barreiras físicas iniciais, passamos a nos preocupar com barreiras à usabilidade e inteligibilidade de interfaces de sistemas, barreiras à acessibilidade (independente dos sentidos do usuário), e assim por diante….tudo que impede ou dificulta o acesso e uso de computadores (ou dispositivos baseados em sistemas computacionais). Atualmente, me preocupam mais as barreiras que escondem questões da ética e responsabilidade social; por exemplo, a captura de dados do usuário ou de suas ações no sistema, de forma inadvertida e silenciosa, sem seu conhecimento ou concordância explícitos.

Nos primórdios da disciplina IHC (Interação Humano-Computador), as barreiras H-C, que precisaram ser removidas, eram de natureza ergonômica (física); por ex., como evitar o esforço repetitivo do usuário; por ex.,  movimentos repetitivos no teclado, de forma a não o machucar. Passou-se daí a como prover melhor ‘usabilidade’ e ‘acessibilidade’ de interfaces (gráficas) de sistemas; por ex., dispondo elementos de interface que façam sentido aos usuários que precisam realizar tarefas no computador, ao mesmo tempo garantindo acesso a pessoas com limitações sensoriais. No geral, como propiciar uma ‘experiência de uso’ de determinado sistema, que seja positiva, engajadora.  

As barreiras atuais estão nos campos da ética e da responsabilidade social, que dependem da educação dos criadores de tecnologia (designers, desenvolvedores, arquitetos da informação, etc.) e sua visão de mundo, sua consciência social, como enxergam a relação pessoa-tecnologia, situando-a na Filosofia da Tecnologia. 

Entrevista e Edição: Denise Pereira


[1] Papert, S. Mindstorms Children, Computers, and Powerful Ideas, Basic Books, Inc. 1980.

[2] O I Seminário Nacional sobre Informática na Educação, ocorreu em Brasília, de 26 a 28 de agosto de 1981.

[3] https://www.youtube.com/watch?v=6J0so-4d2dA&gl=BR

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