Trabalho debate representatividade e identidade dos negros

Mulher, jovem e negra. Nossa bolsista, no IF Campus Registro, escolheu falar sobre Grandes Mulheres da História da África. E a pesquisa, realizada durante sua Iniciação Científica no Programa WASH, enquanto cursou o Ensino Médio integrado ao Técnico,  foi um sucesso.  Nesta entrevista, Lígia Santos de Oliveira, 17 anos, que faz, atualmente, Comunicação Organizacional na Universidade Tecnológica Federal do Paraná,  fala sobre seu trabalho, que lhe garantiu uma posição como  finalista na  18ª Feira Brasileira de Ciências e Engenharias – Febrace,  da Escola Politécnica da USP – Universidade de São Paulo.
 
De acordo com Lígia, sua pesquisa buscou fundamentar ainda mais o conhecimento sobre a história dessas grandes mulheres da África, dar visibilidade a  novos personagens, e mostrar histórias que contem mais o poder de fala da população negra e que possam auxiliar na questão da identidade, além de romper estereótipos e auxiliar no desenvolvimento social como um todo.
A temática foi inspirada na própria legislação que prevê,  dentro das Diretrizes Curriculares para a Educação,  a necessidade de estudar a história e cultura africanas e afro-brasileira. Todo trabalho de pesquisa teve a orientação dos professores André Santos Luigi e Iamara de Almeida Nepomuceno.

WASH: Como surgiu o interesse por trabalhar esse tema “Grandes Mulheres da História da África”?

Esse projeto Grandes Mulheres da História da África faz parte de um projeto mais amplo que  desenvolvo sobre “Reis e Rainhas da África”, com objetivo de construir material didático sobre reis e rainhas africanas, não só mulheres, mas também homens; enquanto figuras representativas.

No decorrer deste trabalho, eu senti a necessidade de focar, inicialmente, nas mulheres, pela questão de gênero e, também, porque no contexto da história da África existe um silenciamento maior sobre as mulheres em relação aos homens. Também pela questão das mulheres negras enquanto figuras representativas. Eu senti essa necessidade de fazer esse recorte e construí essa nova pesquisa.

WASH: Muito interessante unir o gancho da legislação com seu o tema de pesquisa/trabalho. Comente essa questão com nossos leitores.

A base fundamental do meu projeto é a legislação, porque as diretrizes curriculares expõem a necessidade de estudar a história e cultura africanas e afro-brasileira também. Nós buscamos uma forma mais recreativa para difundir esse conhecimento. Produzimos um site que tenha material didático que facilite o acesso a essa informação, com o intuito de auxiliar no cumprimento da legislação. O trabalhar a legislação é uma forma de ajudar para que ela seja colocada em prática, ainda que ela já aconteça. Mas fundamentar mais o conhecimento, mostrar a história, mostrar novos personagens, e histórias que contem mais o poder de fala da população negra e que possam auxiliar na questão da identidade, além de romper estereótipos e auxiliar no desenvolvimento social como um todo.

WASH: Como essas mulheres foram escolhidas e como elas podem ajudar a desmistificar a imagem do negro na história sempre associada à escravidão?

Elas foram escolhidas, principalmente, porque buscam representar todos os períodos da história da África.

WASH: Quais foram os principais desafios do seu trabalho?

Não estão relacionados a produção dos verbetes e bibliografias sobre essas mulheres. Para escrever, é claro, eu fui fazer uma grande busca, mas tive que fazer uma análise crítica para verificar se os materiais tinham uma perspectiva mais eurocêntrica, se buscavam apropriar de alguma imagem. Mas o maior desafio foi trabalhar com a história da África. Em alguns momentos, falar sobre a história do povo negro e falar como isso pode contribuir para a nossa sociedade. Confesso que fui muito criticada. Em alguns momentos tive vontade de parar, de desistir e pensei até que não fosse necessário, que poderia ser um “mimimi” trabalhar com a história da população negra. Mas sabia que a gente precisa estudar a história do negro, saber e conhecer essa história pra aplicar no dia a dia. Houve, ainda,  essa dificuldade, sobretudo, neste momento, da forma como a pessoas recebem essa pesquisa, por achar que isso não é tão necessário.  Muita gente pensa que é algo que já passou, que não vai mudar nada.

WASH: Como foi a sua experiência escolar em relação a este tema?

Enquanto eu era estudante, em várias rodas de conversas, nós interagimos bastante com os alunos, e o que me deixava feliz era ver que os alunos estavam absorvendo os conteúdos. Alguns questionavam;  outros diziam será que foi mesmo assim? Outros diziam que legal que existe esta versão…ou até mesmo, afirmavam: eu gostei, me identifiquei. As principais surpresas dessa pesquisa foram as respostas que obtive, pois foram elas que me motivaram a não desistir. Fui recebendo respostas de pessoas que estavam entendendo, estavam se identificando, se encontrando dentro da história. Descobri inúmeros conhecimentos que não tinha sobre a história e aprendi a trabalhar com a história e a forma como a história pode mudar ou não o pensamento.  Uma das maiores surpresas foi quando eu fiz uma apresentação para um garoto de 10 anos, que se identificou e disse: “ isso parece comigo”. E ele me deu um abraço e foi embora. Pra mim, foi algo gratificante, pois eu consegui passar para uma criança uma mensagem que eu não tive –  a oportunidade de me identificar e me reconhecer enquanto negra.

WASH: Qual a importância desse trabalho e como você pretende divulgá-lo a partir de agora?

O que eu destaco como um dos pontos mais importantes do trabalho é que a gente produz material didático para auxiliar no cumprimento da legislação. Nós analisamos em Registro que é necessário ter um auxílio para o cumprimento dessa legislação. A produção é o mais relevante. E importante também porque tem a questão  de uma nova memória social, uma nova divisão, tem a ver com o rompimento de estereótipos com os afrodescendentes.

WASH: Vocês montaram um site com a sua pesquisa, como tem sido o acesso ao site?

Nós temos este site, sim. É um dos meios de divulgação da pesquisa. Agora, nós temos um vídeo para a exposição do projeto. Temos os anais do IFs do Vale do Ribeira, onde tem o registro do meu trabalho, entre outros;  e estamos pensando em criar uma conta no Youtube para trazer essas histórias e contar os relatos, além de divulgar ainda mais informação.

O site não é somente sobre a minha pesquisa. Ele é de um grupo de pesquisadores da região do Ribeira. O nome do grupo é Etniar e trabalha com várias questões da memória, da identidade da população quilombola, da população indígena e da população tradicional do Vale do Ribeira como um todo. Eu estou neste site, porque estou produzindo essas bibliografias e estou no âmbito da Educação. O site é de fácil acesso e não há dificuldades. Estamos recebendo sempre boas respostas.

WASH: Você é finalista na Feira de Ciência do Vale do Ribeira, o que isso representa para o seu trabalho?

Eu sou finalista da Feira Brasileira da Ciência das Engenharias – Febrace, mas já passei pela Feira da Ciência do Vale do Ribeira, que me indicou para participar deste evento, em São Paulo. Isso representa muito para o meu trabalho, porque eu participei por três anos consecutivos da FECIVALE (Feira de Ciência do Vale do Ribeira)  e só no terceiro ano do Ensino Médio que eu consegui essa indicação para apresentar meu trabalho, o que eu sonhava há dois anos. A FECIVALE sempre me ajudou e ela acontece no IFPR Registro, meu próprio campus. Eu estava ali, no meu próprio campus divulgando o meu trabalho para os meus colegas, ampliando os laços com professores. Foi um grande crescimento pessoal e de trabalho e fez com que eu passasse a amar congressos científicos.

WASH: Você pretende levar essa experiência para apresentá-la em mais espaços científicos?

Eu pretendo, sim! Com muita certeza , vou levar esse trabalho pra frente, apresentá-lo mais em relação à questão do gênero, sobre o protagonismo feminino, pautar bastante essa questão da legislação e também mostrar essa experiência de o que é produzir um projeto de Ciência no Ensino Médio. É algo muito importante de ser tratado, pois é uma forma de estimular os adolescentes, assim como eu, a fazerem pesquisas. Quero ir a mais congressos, alguns de tecnologias, alguns de Iniciação Científica. Algo que me permita sempre compartilhar todo conhecimento que adquiri.

WASH: Mas, afinal, quem foi a personagem da história que mais te chamou atenção no seu trabalho?

A líder que eu mais gostei, a de maior impacto, foi a faraó Cleópatra. Pensando bem, ela é popularmente conhecida. De forma geral, as pessoas sabem quem ela foi. Eu quis trabalhar com ela primeiro e mudei, totalmente, o meu ponto de vista em relação à história das mulheres africanas. Eu imaginava que a história dela era de uma forma e eu vi que, se você estuda profundamente,  você percebe que ela não é reconhecida apenas por ter liderado o Egito contra o Império Romano, mas que por ela ter feito isso, várias nações quiseram apropriar-se da sua representatividade e imagem. Há várias disputas: a Ásia diria, ela é asiática; os europeus, que ela era europeia; outros que ela era do continente africano ou da Mesopotâmia. Como ela foi uma grande figura representativa existem essas disputas e  isso de tentar reivindicar a sua nacionalidade. Também existem várias formas, tonalidades, corpos e cabelos para associar a Cleópatra; e os mais populares são aqueles que não se assemelham a mulher negra, embora o Egito fique no continente africano. Foi muito importante essa discussão sobre apropriação para entender a história da África. Nós não podemos afirmar, categoricamente, que ela era negra, mas eu posso questionar por que ela não poderia ser negra e por que essa hipótese foi a mais descartada? Por que a inteligência dela não poderia ser de uma mulher negra? Então, esse primeiro tema me abriu completamente para o meu trabalho.

WASH: E se a história fosse contada agora, a história presente, cite as suas mulheres negras de referência no momento.

Eu tenho um carinho enorme por quatro mulheres e as uso em minha pesquisa. E, ainda, procuro lê-las para me fortificar enquanto jovem e mulher.

Eu gosto muito da Djamila Ribeiro, gosto das suas discussões e a vejo como uma referência intelectual brasileira, porque ela expõe a necessidade de conhecer a história da população negra, do autoconhecimento e da  identificação. Ela expõe as dificuldades das mulheres, seus lugares de fala, a dificuldade acadêmica da mulher negra e a luta constate por reconhecimento.

Também, destaco a Maria Izilda de Matos nas discussões sobre gênero.  Ela debate como as mulheres passaram a ser inseridas na história. Ela fala que elas não tiveram a sua história totalmente contada. Eu gosto muito dessa discussão.

E, agora, pensando em duas mulheres fora do âmbito nacional, eu também gosto bastante da Angela Davis. Gosto de seus livros, da forma como ela relaciona mulheres, raça e classe. E gosto ainda da bell hooks. Ela faz muitas reflexões filosóficas sobre a questão da mulher, sobre a questão de relacionamentos.

Entrevista e edição: Denise Pereira

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