Afinal, por que um catálogo de filmes de ciência para nossa rede?

A frase, acima, atribuída à Rosália DUARTE (2002) é emprestada aqui, porque, por si,  justifica meu propósito na construção de um catálogo de filmes de ciência, dando resposta à pergunta inicial deste texto.

Ver filmes é uma prática social tão importante do ponto de vista da formação cultural e educacional das pessoas, quanto a leitura de obras literárias, filosóficas, sociológicas e tantas mais”.

Considerando que o Programa WASH atua com Ciência e Artes (Metodologia STEAM), havendo, portanto, convergência das temáticas “Ciência, Cinema e educação”, sobretudo, porque um dos propósitos do WASH é o aprendizado com ludicidade, o que o cinema oferece; e, também, tendo em vista que a aproximação de crianças, adolescente e jovens – público de Projeto WASH – com o universo do cinema, nos tempos atuais, é cada vez maior, a pesquisa para a construção de um catálogo de filmes de ciência buscou propor uma iniciativa para divulgação da ciência, usando essa ferramenta de forte apelo e estímulo visual.

Importante um parênteses para termos a dimensão do mercado cinematográfico na vida do brasileiro. Um simples olhar sobre as salas de exibição passa a impressão de que o público infanto-juvenil está entre o mais presente. Impressão que pode ser confirmada com dados da Revista Shopping Centers, que aponta que, em algumas redes de cinema, esse público
representa entre 40% a 60% do público total. O que comprova o amplo interesse por esse tipo de entretenimento. A publicação eletrônica aponta que, de forma geral, as famílias dominam as salas de cinema no Brasil. “As famílias são o público mais representativo nas bilheterias”. E isso acontece porque o cinema é um dos roteiros de passeios mais
comuns para as famílias, sobretudo, nas férias escolares, no Dia das Crianças, no Carnaval e feriados estendidos.

De acordo com a Agência Nacional do Cinema (ANCINE), em 2021, mais de 52 milhões de pessoas entraram numa sala de exibição. Esse número, antes da pandemia de Covid (2019), ultrapassava a casa de 176 milhões; mas, teve queda significativa em 2020, auge do isolamento, recebendo menos de 40 milhões de pessoas. Esse mercado movimentou
rendas na ordem de R$ 914 milhões em 2021, com lançamento de 309 filmes neste ano, sendo 129 brasileiros e 180 estrangeiros

Em síntese, minha compreensão é que Cinema, sendo arte e linguagem, dialoga com nosso principal foco que é a Ciência, e essa união pode facilitar a divulgação científica, contribuindo na ampliação do interesse da nossa comunidade pela própria ciência.

Com esse pano de fundo, o foco do meu trabalho foi apresentar uma coletânea de filmes de ciência, escolhidos por quem vive, pensa, faz e divulga ciência – um júri, especialmente convidado de cientistas e jornalistas/divulgadores de ciência.

É consenso que filmes podem e devem ser usados como ferramentas ou recursos pedagógicas dentro da sala de aula.  A argumentação de alguns autores corrobora com esse pressuposto.

SANTOS (2019), em Ciência, cinema e educação: reflexões sobre o filme na escola, reforça:

“O filme, por meio de suas múltiplas linguagens, pode ser empregado como mediador para aprendizagem de conceitos  e leis científicas; assim como para a discussão do contexto histórico de construção da Ciência e de sua ligações com o social, podendo também criar condições de contextualizações e problematização em sala de aula.”

Nesta mesma linha, Leonardo CARMO (2003) acrescenta que “o  cinema como prática pedagógica pode fazer o aluno se interessar pelo conhecimento, pela pesquisa, de modo mais vivo e interessante que o ensino tradicional.

Esse elemento motivador no processo do aprendizado, também, é lembrado por SANTOS (2019).  “Um bom filme pode ser usado para introduzir ou problematizar novos assuntos, aumentar a curiosidade e aguçar a motivação para novos temas e, conforme ação mediadora do docente, estimular nos alunos o desejo da pesquisa.”

Rosa Maria Bueno FISCHER(2007),  amplia tal colaboração do cinema:

“A utilização de filmes em sala de aula contribui decisivamente para o alargamento das fronteiras da escola, uma vez que o cinema se coloca na vida contemporânea não apenas como entretenimento, mas também como linguagem formadora de opinião.'”

Maria da Conceição Francisca PIRES e Sérgio Luiz Pereira da SILVA,  em O cinema, a educação e a construção de um imaginário social contemporâneo, também, enfatizam a importância do cinema para o aprendizado. A linguagem imagética do cinema cada vez mais tem contribuído na dinamização do processo de aprendizagem de crianças, jovens e adultos.”

Apesar desse rol de argumentos e das diversas experiências do uso do cinema na escola, é preciso destacar que, ainda, há muito para se avançar na temática: existem dificuldades de inclusão do cinema dentro da sala de aula, discussões sobre adequação dentro dos currículos, desafios metodológicos para o uso das produções, existem questões técnicas para levar os filmes para as escolas (até mesmo dificuldades de projeções),  necessidade de preparação dos professores no uso dessa linguagem, pois é preciso planejamento e clara intencionalidade no uso de filmes na escola. E os enfrentamentos não param aí.

Mas, por outro lado, existem esforços recentes, políticas públicas para essa inclusão do cinema na escola. Um exemplo a citar é o da Lei 13006 de junho de 2014, que prevê “A exibição de filmes de produção nacional como componente curricular complementar integrado à proposta pedagógica da escola, sendo a sua exibição obrigatória por, no mínimo, 2 (duas) horas mensais.”

Embora, tenha sido tema de debates e sofrido questionamentos por ocasião da sua sanção quanto a critérios de escolha, formas de exibição, preparação dos professores para garantir a formação do público para o cinema nacional, fica a questão: essa foi mais uma daquelas Leis que pegaram ou não, no Brasil? Com a resposta as escolas.

E com o olhar nos resultados da minha pesquisa, pouquíssimos foram os filmes brasileiros apontados pelos nossos convidados, fato que inviabilizaria a própria aplicação dessa legislação.

Ciência nos filmes ou filmes de ciência

A proposta do catálogo de filmes não é fazer nenhum aprofundamento da discussão sobre como a ciência aparece nos filmes, quais são os seus estereótipos, imagens e traços mais presentes ou recorrentes, tons adotados (se mais catastróficos, sombrios e dramáticos), tarefa que diversos autores e teóricos já fizeram. Mas, deixar que a ciência presente nos filmes seja apontada pelos convidados, pela simples indicação do olhar do profissional e do divulgador de ciência. Por isso, o que um cientista ou divulgador, eventualmente, destaque como drama, pode ser apontado por outro como apenas uma biografia, quando são citados os gêneros dos filmes, uma vez que as indicações são de foro pessoal.

A intenção foi dar visibilidade aos filmes que transitam pelo tema da ciência, e esse trânsito é por uma avenida bastante larga, onde circulam as teorias científicas, os personagens (importantes cientistas), descobertas e feitos, debates científicos, previsões futurísticas, enfim, inúmeras representações onde a ciência é o centro ou pode ser, simplesmente, só a base, o pano de fundo.

Dados esses avisos aos curiosos pelo nosso guia de filmes, informo que, ainda, neste mês de maio,  o Catálogo de Filmes de Ciência – Indicações de cientistas e divulgadores de ciência, será publicado neste site.

Lembro, aqui, que de forma resumida parte do conteúdo do Catálogo ganhou espaço no Canal do WASH, no Facebook, com a divulgação semanal dos filmes escolhidos por cientistas e divulgadores, em coluna intitulada também como Cine & Ciência. As recomendações dos cientistas já foram todas publicizadas, integralmente,  neste canal; e,  na sequência, o espaço será aberto às indicações dos filmes dos divulgadores de ciência. Foi uma solução para tentar trazer essas dicas de filmes, para aqueles que não estão dispostos a fazer a leitura integral do e-book; uma proposta mais extensa. Mas, também, uma  estratégia de trazer alguma curiosidade  para a leitura do catálogo, posteriormente, uma vez que a divulgação de forma sintetizada e paulatinamente colocaria a temática em pauta para o público.

Texto de autoria  da própria organizadora: Denise Vieira Pereira, jornalista, 53, é bolsista do Programa WASH, autora da pesquisa, que resultou na produção do Catálogo Cine & Ciência.

Referências Bibliográficas:

ANCINE. Observatório do Cinema e do Audiovisual. Mercado audiovisual brasileiro. Publicado em Mercado Audiovisual Brasileiro — Agência Nacional do Cinema – ANCINE (www.gov.br). Acessado em 22.11.2022.

CARMO, Leonardo.  O Cinema do feitiço contra o feiticeiro. Editora Puc: Goiás (2012). 96p.

DUARTE, Rosália. Cinema e Educação.  Autêntica (2002): Belo Horizonte. 128p.

FISCHER, Rosa Maria Bueno. Mídia, máquinas de imagens e práticas pedagógicas (Revista Brasileira de Educação – 2007).

GILMOUR, David. O Clube do filme (tradução: Luciano Trigo). Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009.

PIRES, Maria da Conceição Francisca; e SILVA,  Sérgio Luiz Pereira da. O cinema, a educação e a construção de um imaginário social contemporâneo. Disponível em https://www.scielo.br/j/es/a/s66hjCWqgBRckwwj5MGzztp/?format=pdf#:~:text=Faz parte%2C portanto%2C de uma indústria cultural globalizada,demonstra sua efetiva potencialidade no contexto da aprendizagem. Acessado em 20/01/23.

PROGRAMA WASH. 2020. Portaria 178/2018 SEI/CTI. Disponível em: https://wash.net.br/legislacao/portaria-no-178-2018-sei-cti/ .Acessado em: 22/03/2021.

REVISTA SHOPPING CENTERS. Diversão para todas as idades: famílias dominam as salas de cinema no Brasil. Publicado em 06/02/2020: Diversão para todas as idades: famílias dominam as salas de cinema no Brasil – Revista Shopping Centers. Acessado em 20/12/2022.

SABADIN, Celso. A história do cinema para quem tem pressa. 3. Ed. Rio de Janeiro: Valentina, 2022. 200p.

SANTOS, José Nunes dos. Ciência, cinema e educação: reflexões sobre o filme na escola. 1ed. Jundiaí-SP: Paco Editorial, 2019, 120 p.

SCHNEIDER, Steven Jay. Mil filmes para ver antes de morrer. Editora Sextante (2008).

VESCE, Gabriela E. Possolli. Relação entre Cinema e Educação. Portal Infoescola. Disponível em : https://www.infoescola.com/pedagogia/relacao-entre-cinema-eeducacao/. Acessado em 24/03/2022.