Tendo Paulo Freire muito presente na sua atuação na educação, Helena Xavier transporta a obra do educador para a sua produção musical, e Freire ganha letra e música.

Pedagoga, musicista e compositora, Helena Xavier comenta que cantar Freire foi um dos seus maiores desafios pelo fato da sua grandiosidade e importância.

Sua canção Esperançar, é Freire, do começo ao fim, e transborda as mensagens que educar é um ato de amor, de dialogar e lutar, de criticar, de esperançar. Esperançar, também, é o título de seu último álbum.

Nesta entrevista, ela conta como foi construir a canção e os seus desafios e, ainda, fala sobre a proximidade de Freire com a música.

WASH: Essa canção é uma homenagem que foi encomendada ou surgiu do seu interesse pelo tema Paulo Freire e seu centenário no ano passado, uma vez que você, também, é educadora?

Ela foi um desejo pessoal, porque Paulo Freire me atravessou durante a minha Pós-graduação. No Mestrado, li muito Freire; e ele me transformou. E quando teve início esse governo e começaram, também, as difamações e desconstrução do seu legado e de tudo que Paulo Freire representa para o povo brasileiro, eu me senti indignada e achei que precisava fazer essa homenagem, antes mesmo do centenário do educador. O tema do meu álbum, também, é esperançar, e tem a ver com o trabalho de Freire.

WASH: Você sabe se Paulo Freire tinha alguma relação com a música, tocava algum instrumento ou tinha aproximação com essa área?

Em alguns escritos que vi e em alguns livros, Paulo Freire, quando ia se apresentar, dizia que gostaria de ser um cantor. Ele tinha uma relação muito forte com a cultura. Ele falava muito de cultura e de identidade cultural; e eu usei isso nas formações que realizei com professores, quando estava na Secretaria de Educação, destacando o quanto era importante conhecer o nosso entorno, culturalmente falando, os artistas invisíveis, os artistas regionais, isso tudo inspirado nas palavras de Paulo Freire.

WASH: Como foi o processo de composição desta letra, ela traz frases das obras de Freire e do seu cotidiano. É fácil poetizar Freire numa canção?

O processo de construção da canção foi muito dolorido, porque é muito difícil falar de uma pessoa tão importante para mim, para a nação e para o mundo. Foi a canção mais difícil de finalizar. Antes, meu foco era instrumental; mas essa canção eu refiz três, quatro vezes para chegar a um resultado razoável. E, realmente, eu gostaria de trazer a referência dos textos dele, textos que eu li, que são pontos marcantes em suas obras, quando ele destaca o dialogar, o desenvolver a criticidade, a consciência social, a consciência de uma educação que traga essa consciência crítica; e, ao mesmo tempo, traga essa amorosidade, essa mensagem que a educação é um ato de amor; e o quanto estamos reféns de pessoas que não tem interesse em propagar essas palavras tão necessárias ao Brasil. Essa palavra da Pedagogia da Esperança é sempre importante retomar.

Nesse processo, eu passei, também, a fazer parte de um grupo de mulheres feministas e passei a estudar muito a bell hooks, que destaca o quanto Paulo Freire foi uma grande referência pra ela. Tudo isso foi se conectando. Essas teias foram sendo emaranhadas e a gente vai construindo um alicerce de esperança, em meio à tanta aridez.

WASH: A canção trata de um tema tão importante que é a esperança, acompanhada da ação para a transformação. Ela ganha uma conotação mais forte nestes tempos de tantos retrocessos no país?

Eu não sou uma poeta. Eu tento e procuro trazer as questões sociais. Uma outra música que fiz, que chama Jongo, durante a pandemia, também, questiona essa questão do brasileiro sempre buscar herói, por meio religioso ou na política, enquanto precisamos é ver nossa força e tomar as rédeas da nação. E isso a gente só faz com educação.

WASH: Qual a sensação de cantar Paulo Freire? Paulo Freire vive para além das universidades ou o país ainda precisa descobri-lo? E como tem sido a receptividade dessa canção e deste trabalho?

A sensação de cantar Paulo Freire é maravilhosa, ao lado de amigos, que são amigos de anos como o Denilson de Paula (baterista) e Junhinho Ferrer (baixo) e com a contribuição do Tiago Reis (captação de áudio). É muito bom ver quando as pessoas se unem ao redor de uma causa.

Eu não fiz essa canção pensando em receptividade, na questão mercadológica. Foi mesmo uma necessidade pessoal de homenagear esse educador, que é tão importante pra mim.  A arte é uma necessidade humana, como dizia Ferreira Goulart. “A arte existe, porque a vida não basta”. Mas, eu fiquei muito surpresa com a receptividade de alguns grupos. A divulgação aconteceu com alguns grupos de estudos do Paulo Freire, de pessoas – que acredito – compartilham que vivemos tempos de desgovernos. Essas pessoas sentiram essa emoção e essa verdade, que eu tento passar, que é o que representa a obra de Paulo Freire, para mim.

Acesse o link para acompanhar o vídeo da canção Esperançar: https://www.youtube.com/watch?v=Y3tRzu4cJI8&feature=youtu.be

Quem é Helena Xavier

Pianista, compositora, regente de coro, arranjadora e educadora musical. Em sua formação musical traz seus estudos musicais de música popular e jazz na Universidade Livre de Música (SP), no Conservatório de Tatuí, onde estudou com o pianista do Hermeto Pascoal, André Marques. Em Londres, estudou em 2008, na Guidhall School of Music. Graduou-se em licenciatura em Música pela Unesp e participou de inúmeros festivais de música em Curitiba e Londrina, onde pôde fazer aulas com grandes nomes do jazz brasileiro. Helena Xavier participou de vários grupos de música instrumental brasileira na cidade de São Paulo, apresentando-se com o guitarrista Armando Leite e o grupo feminino Catirina, no SESC INSTRUMENTAL da Paulista e outros SESCs.

Helena traz referências de seus estudos de jazz, música brasileira e música erudita no piano e, de forma coletiva, constrói os arranjos, com a parceria de Denilson de Paulla, na bateria, e Juninho Ferrer, no baixo. Helena tem 4 DVDs gravados com o trio Teto de Vidro, Quarteto Chuim, o cantor Tuia e a cantora Beth Sá.

Seu último álbum foi lançado em 2021 pela Tratore, intitulado “Esperançar”, cujo lançamento oficial ocorreu em 2022, no Sesc São José dos Campos e no Museu da Imigração na capital paulistana.

Como educadora, desenvolve trabalhos com música com alunos de escolas públicas municipais e, entre 2015 e 2021, atuou como coordenadora do Projeto de Educação Musical e Canto Coral da rede municipal de São José dos Campos, SP. Hoje, atua como educadora e regente de coral do Instituto Luzes da Ribalta, na região periférica da cidade.

Texto sobre a cantora: Divulgação

Entrevista e Redação: Denise Pereira

Fotos: Show Esperançar