
Meteorologista do Cemaden, Fabiani Bender, fala sobre eventos climáticos
De uma família de agricultores, a meteorologista Fabiani Denise Bender, quando adolescente, dividia seu tempo entre a escola e o trabalho do campo. Nesse cenário interessava-se cada vez mais em conhecer a ciência do tempo e como as condições climáticas afetavam a agricultura. “Os fenômenos extremos, como a seca ou excesso de chuvas têm um impacto direto na atividade agrícola. E isso despertou meu interesse e me levou a buscar uma formação científica”, conta.
Fabiani é bacharel em Meteorologia, mestre em Ciências Atmosféricas pela Universidade de São Paulo (USP) e tem pós-doutorado em Ciência, pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), em Piracicaba/SP.
Em 2021 teve o trabalho “O Impacto das Mudanças Climáticas na Produção de Alimentos” reconhecido no Prêmio Fundação Bunge 2021 em sua 65ª. Edição, na categoria Juventude, na área de Ciências Agrárias. A cientista é a convidada do Projeto WASH para discutir mudanças climáticas e eventos extremos. Confira a entrevista
WASH – As mudanças climáticas têm provocado grandes transtornos ambientais e impactos nas mais diversas áreas: na agricultura, no planejamento urbano e desenvolvimento das cidades, para o meio ambiente e para a vida no planeta. Como a ciência do clima e do tempo pode ajudar a minimizar os riscos e prejuízos causados pelos fenômenos climáticos?
Fabiani Bender – Sem dúvida, essa é uma via de mão dupla, isso porque, para prevenir ou minimizar os impactos com desastres naturais, em primeiro lugar, é preciso entender os mecanismos dos fenômenos naturais e, em segundo, aumentar a resiliência da sociedade no enfrentamento de eventos climáticos extremos. Nesse contexto, a primeira etapa cabe a institutos de pesquisas e universidades, que devem alertar para a ocorrência e apontar alternativas no enfrentamento desses fenômenos. A segunda, exige do poder público ações de adaptação para cada setor.
WASH – A tecnologia revolucionou os trabalhos de previsão do tempo e prevenção dos impactos do clima; mas, ainda assim, após grandes tragédias, como nós estamos acostumados a assistir no Brasil, sempre fica uma sensação de que algo poderia ter sido feito a mais. Nesta área, como em diversas da C&T, os problemas são da ordem da falta de investimentos, transferência de tecnologia, de profissionais especializados ou outros. Onde se encontram os principais desafios deste setor para o país?
Fabiani Bender – Quando pensamos em extremos chuvosos no Brasil, o processo de rápida urbanização de grandes cidades e ocupação de áreas de forma desordenada coloca as populações desses espaços em situação de vulnerabilidade. Isso evidencia que é necessária uma gestão integrada e participativa, no sentido de identificar e implementar ações necessárias para redução dessa vulnerabilidade.
No entanto, pensando que o aumento na frequência e intensidade dos extremos já é uma realidade, e grande parte dos problemas é conhecida, decisões sobre infraestruturas devem considerar conhecimento científico e tecnológico. Aqui que os gestores precisam atuar, no sentido de aproveitar tecnologias e adequar às condições locais, para efetiva redução do risco ao desastre.
WASH – Quais são os limites da previsão dos fenômenos climáticos? A gente costuma brincar que a previsão do tempo é muito falha, mas o que dizem os números em relação aos acertos/erros?
Fabiani Bender – A previsão em si, é realizada por meio de modelos numéricos, que descrevem a atmosfera com base em um conjunto de equações para prever o estado futuro a partir de um conjunto de dados observados do estado presente. Essas informações do estado atual da atmosfera são dadas por variáveis como temperatura, pressão atmosférica, direção e intensidade dos ventos, umidade relativa do ar e chuva, obtidas a partir de vários equipamentos e sensores, como estações meteorológicas automáticas e convencionais, radares, satélites, boias marítimas e aviões, entre outros.
E, sendo a atmosfera um sistema dinâmico, em contínua movimentação, a partir de observações do estado inicial inseridas nos modelos numéricos, consegue-se fazer a previsão das variáveis atmosféricas para as próximas horas, dias, meses etc. No entanto, estas previsões estão sujeitas a fontes de erros devido a diversas limitações, tais como: dados meteorológicos – pela falta de observações, ou onde essas não são confiáveis e, isso também inclui a falta de medidas em diferentes níveis acima da superfície; simplificações e aproximações nas equações que descrevem o movimento da atmosfera – a atmosfera, como sistema físico, é regida por um sistema de equações matemáticas que descrevem o seu movimento. Contudo, a complexidade das equações envolvidas não permite que estas sejam resolvidas de forma exata, exigindo algumas simplificações e aproximações, assim como, nem todas as leis que governam seu movimento são totalmente conhecidas; falta de capacidade computacional – considerando que os modelos numéricos dividem a região de previsão em inúmeros quadrados, isso significa que esses são resolvidos em termos de valores médios sobre uma determinada área, geralmente da ordem de quilômetros. Desse modo, padrões climáticos locais (com dimensões inferiores) associados a irregularidades da topografia e cobertura da superfície não conseguem ser representados.
Hoje, uma previsão de até cinco dias de antecedência tem índice de acerto de 90%, chegando a 80% no prazo de uma semana e, acima de 10 dias o acerto é de 50%. No entanto, algumas variáveis meteorológicas são previstas com menor acurácia, como é o caso da chuva, que possui grande variação em sua distribuição espacial e temporal. E, por mais que uma chuva seja prevista, acertar a quantidade e onde ela vai cair, ainda é muito difícil.
WASH – Em relação aos fenômenos climáticos, ainda existe muito negacionismo, mesmo em países do primeiro mundo; e pouca ação governamental para reduzir o aquecimento global, a emissão de carbono, entre outros, que têm peso enorme nos eventos extremos que o planeta tem enfrentado. Como combater isso?
Fabiani Bender – Os relatórios do próprio Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), produzidos em colaboração com diversos grupos de cientistas de várias áreas espalhados pelo mundo, sem dúvida, são uma importante forma de luta contra o negacionismo climático. Ainda mais, considerando que o IPCC não desenvolve nenhuma pesquisa; e, sim, atua no sentido de reunir, interpretar e divulgar informações relevantes da mudança do clima e seus possíveis impactos socioeconômicos e ambientais, em relatórios de fácil entendimento, para o público e para os tomadores de decisão.
Sem dúvida, tornar acessível a informação e o conhecimento sobre as mudanças climáticas para as populações, é fundamental. Quanto mais conhecimento, melhor, considerando que a educação é também um instrumento de luta contra os problemas ambientais.
WASH – O último relatório do IPCC, em 2021, foi alarmante em constatar que os fenômenos extremos são um problema planetário e que as mudanças do clima estão em nossas mãos e precisam ser compromissadas de forma mais ambiciosa e urgente para limitarmos o aquecimento global e seus resultados catastróficos. A Sra poderia comentar um pouco esse tema?
Fabiani Bender – O relatório deixou claro que as atuais metas globais de emissões de gases de efeito estufa estão inadequadas, e que estratégias de emissões negativas precisam ser assumidas. A meta estabelecida no Acordo de Paris, em limitar o aquecimento global a 1,5° até o final do século, já deve ser alcançada na próxima década, se nada for feito. Além disso, mesmo que as emissões de gases de efeito estufa fossem zeradas, a remoção desses não se daria na mesma proporção, devido a vida útil, cuja permanência de alguns gases na atmosfera é de centenas de anos, e os eventos climáticos extremos ainda seriam intensificados.
Considerando que o sucesso das metas definidas para limitar o aquecimento depende de cada país, é obvio a necessidade de se colocar em prática o compromisso para redução de emissões. E, alinhado a isso, é preciso investir em estratégias para o enfrentamento de eventos extremos e melhorar a infraestrutura em áreas de vulnerabilidade.
WASH – O que a motivou a se tornar uma meteorologista? Fale um pouco da sua profissão. O que mais a atrai?
Fabiani Bender – Meu interesse em compreender a meteorologia, começou ainda na infância. Filha de agricultores, do noroeste do Rio Grande do Sul, onde a agricultura familiar era tradição, dividia meu tempo entre a sala de aula e a lavoura, onde acompanhava as atividades dos meus pais.
Com a agricultura sendo uma atividade dependente das condições de tempo e clima, muito me interessava entender o porquê da variabilidade no clima, de modo que a produção de um ano nunca era igual a de outro. Em 1997, o final do verão e outono do RS foi assolado por um dos eventos de seca mais intensos e a família perdeu grande parte da produção agrícola daquele ano. Foi ali que tive a certeza, de que alguma relação existia por trás desse problema de falta de água.
Sem dúvida a meteorologia é uma ciência multidisciplinar, possibilitando trabalhar em diferentes áreas, e o caminho que tomei é resultado do interesse em buscar respostas na complexa relação entre clima e suas influências/reflexos, aqui é claro, principalmente na agricultura.
WASH – Quais os caminhos da formação de cientistas do tempo/meteorologistas?
Fabiani Bender – O curso de meteorologia é de Exatas, e a formação exige muita física e cálculo. O meteorologista é, acima de tudo, um cientista de dados, considerando que ele trabalha com grande quantidade de informações, e a formação o capacita para atuar na previsão, monitoramento e pesquisa científica.
Hoje, a área de atuação de meteorologista vai muito além da previsão do tempo, exercendo papel fundamental no apoio à tomada de decisão e planejamento em empresas e organizações do governo, em setores como o agronegócio – que envolve o planejamento das safras, desde o manejo do solo, semeadura, colheita e armazenamento apoiado nas condições climáticas; setor elétrico – como nossa matriz elétrica é hidráulica, seu funcionamento é totalmente vulnerável a eventos extremos, e depende diretamente do clima; setor ambiental – para estudos de impacto ambiental; instituições financeiras – o conhecimento prévio das condições de tempo e clima, é determinante no estabelecimento de taxas de juros pelos bancos e financeiras; transporte e logística de cargas – para estudo das condições meteorológicas na redução dos riscos envolvidos; construção civil – informações de tempo e clima dão suporte no planejamento das obras para maior eficiência na execução, redução de multas por atraso e segurança no trabalho; industrias de alimentos e vestuário – previsões de tempo e clima podem apoiar o planejamento estratégico para dimensionar a produção e compra de matéria-prima sem desperdício ou falta de produtos.
WASH – Atualmente, a Sra. é bolsista no Cemaden. Pode nos falar um pouco do trabalho que desenvolve lá? E, também, contar um pouco da missão do Cemaden?
Fabiani Bender – No Cemaden, atuo na consolidação de trabalhos de pesquisa e de desenvolvimento tecnológico, para avaliação de impactos em atividades estratégicas para o Brasil. Isso inclui a avaliação de impactos de desastres naturais (movimento de massa, alagamentos, deslizamentos, enxurradas e queimadas) e de extremos (secas/chuvas e ou inundações) na agricultura de sequeiro e recursos hídricos para geração de energia e abastecimento humano, dando suporte à gestão de riscos hidrogeoclimáticos e de queimadas, e no desenvolvimento de políticas públicas e planejamento estratégico, visando a diminuição dos impactos socioambientais.
O Cemaden tem como missão atuar no monitoramento das ameaças em áreas de riscos em municípios suscetíveis a ocorrência de desastres naturais, além de realizar pesquisa e inovações tecnológicas que possam contribuir para a melhoria de seu sistema de alerta, com objetivo de reduzir o número de vítimas e prejuízos decorrentes, contribuindo assim na redução da vulnerabilidade social, ambiental e econômica.
Saiba mais sobre a nossa entrevistada:
Fabiane Denise Bender ingressou, em 2006, no curso de Meteorologia da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, onde realizou pesquisa de iniciação científica em clima e sua variabilidade. De lá, foi para o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo, onde fez o Mestrado com modelo de previsão de tempo. Depois, foi para a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), onde realizou pesquisas de doutorado e pós-doutorado, aplicando a meteorologia à agricultura, ou ao estudo da agrometeorologia como conhecemos. Acumula experiência nas áreas de geoprocessamento, agrometeorologia e climatologia, com enfoque no uso de modelos de simulação de culturas, e aplicações em diferentes cenários na avaliação do risco climático.
Texto: Delma Medeiros, Denise Pereira
Revisão: Nadia Abilel de Melo