Apesar de maior acesso na ciência nos tempos atuais, as mulheres ainda precisam apresentar maior empenho e também enfrentam dificuldades para ascender na carreira em razão da maternidade e da multifuncionalidade, afirma Luciane Portas Capelo, coordenadora da Câmara de Extensão e Cultura do Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Federal de São Paulo (ICT-Unifesp). Ela é convidada do WASH neste Dia das Mulheres.

Para marcar o Dia Internacional da Mulher, celebrado nesta terça-feira, 8 de março, o Projeto WASH convida mulheres que se destacam na área STEAM: Ciência, Tecnologia, Engenharia, Arte e Matemática para um diálogo sobre os desafios da mulher na ciência e nas carreiras de pesquisa. O primeiro diálogo é com a pesquisadora Luciane Portas Capelo, Coordenadora da Câmara de Extensão e Cultura do Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Federal de São Paulo (ICT-Unifesp), bacharel em Fisioterapia pela Universidade Metodista de São Paulo, doutora em Ciências (Biologia Celular e do Desenvolvimento) pelo Instituto de Ciências Biológicas (ICB-USP), com pós-doutorado na Harvard School of Dental Medicine, departamento de Biologia do Desenvolvimento e Ortodontia.
Dentro do ICT- Unifesp atua no ensino, pesquisa e extensão. É, ainda, coordenadora local e orientadora do Projeto WASH, vinculado à Unifesp.
Luciane avalia que a participação da mulher na ciência é cada vez maior, mas admite que o machismo estrutural da nossa cultura ainda é uma barreira a ser vencida, não apenas no campo científico, mas da sociedade em geral. Segundo a professora, mais que popularizar a ciência é preciso promover a alfabetização científica e oferecer ambientes apropriados para o desenvolvimento do trabalho feminino, em todas as áreas do conhecimento. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.
WASH: Como a senhora vê a participação feminina na ciência?
Luciane Capelo: É cada vez maior, com um grande corpo de pós-graduandas: mas, áreas como de computação ainda têm poucas alunas mulheres. No geral, as coisas estão avançando, mas é preciso mudar muito mais. Mais que convencer as meninas a irem para a universidade, é fazer a universidade criar um ambiente agradável, entender que meninas têm que ser respeitadas, não ser assediadas. A universidade, muitas vezes ainda é um ambiente hostil para as mulheres. Veja a questão da maternidade, por exemplo. Na ciência, a licença maternidade é desconsiderada. Num histórico de produção de homens e mulheres, o tempo de licença maternidade não é levado em conta, então num mesmo período de tempo as mulheres apresentam uma produção menor, em função da maternidade. Na computação, os homens que têm filhos aumentam sua produtividade, enquanto a das mulheres decai.
A ciência está cada vez mais acessível, apesar de estarmos num momento em que está difícil fazer ciência, especialmente para as mulheres. A ciência não é diferente de outras áreas. Se a mulher passa perrengue na oficina mecânica, onde o tratamento dispensado ao homem é diferenciado, isso se estende por todas as áreas.
WASH: E como enfrentar essa realidade e iniciar essa transformação?
Luciane Capelo: Pelo jardim da infância, para quando chegar na universidade a mulher encontrar um ambiente propício, seguro, de fala, de espaço e de liberdade produtiva que permita seu desenvolvimento.
WASH: Qual o maior desafio para as mulheres?
Luciane Capelo: Venho de uma família de classe média alta, sou branca, ruiva, frequentei escolas e universidades privadas, tive o tempo necessário para fazer meu doutorado, depois consegui uma bolsa e pude me especializar no exterior. Eu não vivi essa dificuldade social. Mas o maior desafio para as mulheres é chegarem a postos de docentes, de gestão, conseguirem ascender na carreira, passar em concursos, conseguir espaço para desenvolver seu trabalho, ter acesso a bolsas sem serem tiradas desse destino antes do tempo pela sociedade.
WASH: É importante sair do país para avançar na carreira científica?
Luciane Capelo: Depende da área. Na minha, que é biotecnologia, é fundamental. Mas, em outras áreas, nem tanto, é variável. De maneira geral, no aspecto biológico é difícil a vida na universidade. Não só na ciência, mas em todas as áreas. Na cobertura da guerra da Ucrânia, por exemplo, só tem repórteres brasileiros homens. A diferença de tratamento por questão de gênero afeta todas as áreas. O machismo é estrutural, e se revela na pessoa, não no cientista, seja homem ou mulher.
A ciência para a mulher requer maior empenho. É difícil ascender na carreira por fatores como a maternidade e a multifuncionalidade da mulher. Num casal, se os dois trabalham e o filho adoece, quem abre mão do trabalho e se ausenta para esse cuidado, é ela.
WASH: Como reverter esse quadro?
Luciane Capelo: Pela educação, não tem outra forma. Onde estão as mulheres negras, colegas na universidade? Por que não estão ao meu lado? Porque ficaram no caminho, pararam para cuidar do filho, dos pais idosos, por questões financeiras. Essa situação não tem que melhorar na ciência, mas sim na sociedade como um todo. A área de trabalho é como outra qualquer. Mas a universidade pode ajudar. Na Unifesp-campus São José dos Campos, foi montada uma brinquedoteca ao lado da biblioteca, para a mulher cuidar do filho no período extraturno sem interromper suas atividades. É importante que a universidade entenda que para ter dedicação integral de suas pesquisadoras, tem que oferecer um ambiente agradável, propício.
Na época em que engravidei, foram oito mulheres da equipe a engravidar praticamente ao mesmo tempo, todas com seis meses de licença maternidade. Isso claro, desfalca a equipe, sobrecarrega os que ficam, tanto homens como mulheres, a ponto de ouvir de um colega: “por isso não dá para contratar mulheres”. Têm coisas na área científica que são iguais em todo lugar. Não é só a formação intelectual que conta, a pessoa pode ser muito estudada, mas tem que ter cultura, informação, ética.
Homens e mulheres na universidade precisam de espaço para muitas funções, a intelectual e os outros interesses normais de qualquer pessoa.
WASH: Com a pandemia, a ciência foi o foco dos holofotes. A crise sanitária popularizou a ciência?
Luciane Capelo: Sim, popularizou, mas houve um backlast (repercussão), de distorção da percepção do que é ciência. Como a maioria da população não tem alfabetização científica, as pessoas não diferenciam uma coisa da outra (informação x opinião), leem a informação como querem. Antes de popularizar tem que ter recebido uma formação básica de letramento científico para usar adequadamente a informação. Senão fica tipo analfabeto funcional, que sabe ler, mas não consegue compreender e utilizar devidamente a informação escrita. Com a pandemia, pudemos constatar que nem todo médico é cientista.
A mídia passou a pedir opinião de cientista para tudo, todo mundo queria falar com cientista, mas colocar um cientista da área da saúde para falar da guerra, por exemplo, é um desserviço. Cada um tem que falar do que entende. Eu falo como mulher cientista, mas não estudo gênero em Ciência.
WASH: O Projeto WASH faz um trabalho de popularização e divulgação da Ciência. Como a senhora vê esse programa?
Luciane Capelo: Como o caminho para a alfabetização cientifica. Quando o WASH propõe às crianças fazer um jogo, usando a ferramenta Schatch, na verdade o que elas aprendem é a pensar de forma lógica, sequencial, a desenvolver o raciocínio científico. Para chegar a um determinado resultado no jogo, não adianta fazer muitos caminhos, tem que estabelecer qual é o caminho certo. Para obter um resultado, a criança tem que pensar, analisar até descobrir o caminho. Não adianta pular etapas, tem que usar o raciocínio científico, ter uma visão crítica de cada etapa. O WASH permite que o estudante seja educado cientificamente, saiba cada passo do jogo, traz para a criança uma forma de fazer que é científica. Por isso me associei ao projeto. O Scratch não é só um jogo, é uma lógica de raciocínio que coloca a criança na vivência da ciência. E ciência não é um show pirotécnico, é muito mais rica que isso, faz a criança vivenciar e desenvolver o raciocínio lógico, sequencial.
Texto: Delma Medeiros e Denise Pereira
Revisão: Nádia Abilel de Melo