De acordo com dados da Unesco, menos de 30% dos pesquisadores são mulheres

A ciência reproduz o cenário de muitas outras áreas. É, ainda, um espaço marcado pela forte presença masculina. Em todo o mundo, menos de 30% dos pesquisadores são mulheres, de acordo com dados da Unesco (órgão da ONU – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura).

Para o órgão, também, é em torno deste mesmo percentual o número de mulheres no mundo, que buscam carreiras nas áreas da ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Os dados globais revelam que ainda há um grande percurso para que o espaço científico seja compartilhado de forma mais igualitária entre homens e mulheres. Essa realidade motivou a ONU, em 2015, a instituir o dia 11 de fevereiro como o Dia Mundial das Meninas e Mulheres na Ciência, data para refletir sobre a participação feminina e combater a desigualdade de gênero na pesquisa e ciência.

Em alusão à data, comemorada na semana passada, o Projeto WASH ouviu, nesta matéria, cientistas de todas as idades: quem está começando, quem teve uma vida inteira dedicada à ciência, organismos científicos e levantou dados de entidades de fomento à pesquisa relacionados ao gênero. Nosso convite é que você não deixe, passar em claro, essa reflexão que é tão necessária.

Frente aos dados globais, a vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Fernanda Sobral, defende que “só se transforma esse cenário de baixa participação feminina na ciência e na pesquisa, quando houver maior participação feminina nos comitês de avaliação, que são justamente os órgãos que definem recursos para elaboração de pesquisas e, também, nas instâncias superiores da gestão da ciência e tecnologia”.

A vice-presidente afirma que isso vem mudando e cita a própria SBPC. Já tivemos três mulheres presidentes na entidade. “Hoje, temos uma diretoria com maioria feminina. Somos sete mulheres, numa gestão com nove nomes.” Ainda assim, ela defende que é preciso promover a participação cada vez mais igualitária, indicando mulheres para os espaços de conselhos, além de construir incentivos às mulheres cientistas, garantindo a elas mais visibilidade. 

Ela cita como exemplo de incentivos o Prêmio “Carolina Bori Ciência e Mulher” da SBPC, que reconhece cientistas brasileiras e incentiva meninas na ciência; destaca premiações estabelecidas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), além de lembrar a necessidade de se promover políticas públicas para trazer meninas para carreiras científicas e o momento da pandemia, que, apesar do impacto social, trouxe visibilidade para as mulheres na ciência. “O debate de vários temas da ciência realizado pelas mulheres permitiu que as pessoas passassem a ver na imprensa e nas mídias caras e falas das mulheres cientistas; e essa divulgação é uma referência muito importante para atrair meninas para a ciência”.

No Brasil, dados do CNPq trazem um cenário bem mais animador que os dados internacionais, em algumas modalidades da pesquisa para o público feminino. As mulheres são maioria entre as bolsistas de Mestrado e do Doutorado, na entidade. Ainda que os números sejam bem próximos, temos, no Mestrado, 4.706 homens bolsistas para 5160 mulheres. Já no Doutorado, a relação é de 5034 homens para 5074 mulheres.

Fato que chama atenção é que na iniciação científica os números começam a dar vantagem às mulheres na ciência. Nesta modalidade, as meninas já estão na liderança (Veja quadro abaixo).

Entretanto, nas bolsas de produtividade em pesquisa, que exigem titulação mais alta (doutorado ou livre docência), os homens são ampla maioria. Somam 10.056 bolsistas e as mulheres são 5.495.

MODALIDADE DE BOLSAS

HOMENS

MULHERES

 Produtividade em Pesquisa

10.056

5.495

Mestrado

4.706

5.160

Doutorado

5.034

5.074

Iniciação Científica Jr.

9744

10.550

Iniciação Científica

20.068

30.461

Com a palavra, quem tem uma vida dedicada à ciência

Com uma vida inteira dedicada à ciência e à pesquisa, Alaide Pellegrini Mammana, física pelo Instituto de Física da Universidade de São Paulo, especialista em Engenharia Nuclear (USP/IEA/CNEN) e doutora em Ciências pela Escola Politécnica da USP, afirma que “a participação feminina tem aumentado muito. No entanto, no momento atual, há um desinteresse generalizado, visível tanto para as meninas quanto para os meninos”.

Prof.ª Alaide Pellegrini Mammana, física pelo Instituto de Física da Universidade de São Paulo, especialista em Engenharia Nuclear (USP/IEA/CNEN) e doutora em Ciências pela Escola Politécnica da USP

Professora titular aposentada pela Unicamp, com amplo reconhecimento internacional,  recentemente capa de uma das mais renomadas publicações internacionais, a revista Information Display da Society for Information Display, publicada em setembro/outubro de 2021, Alaide destaca que “o Brasil passa por um péssimo momento. O governo atual não acredita em ciência e tecnologia. Sua política de destruição em todas as áreas (saúde, educação, economia…) também ocorre na ciência e tecnologia”, diz.

No entanto, a professora não deixa de dar uma palavra de incentivo às meninas na ciência e motiva: “curiosidade, interesse, paixão e dedicação. Há que estudar muito, durante toda a vida. Mas a carreira científica é apaixonante”, defende a física.

A empolgação de meninas e jovens na ciência

Foi esse elemento, a paixão pela descoberta, que moveu a bolsista do Programa WASH, Ariane Cerqueira Joaquim, graduada em Licenciatura em Química pelo Instituto Federal de São Paulo (IFSP), Campus São José dos Campos, para a ciência. Aos 24 anos, a jovem cientista participa desde 2021 do projeto “Clube de Ciências Meninas nas Exatas, no Vale elas Fazem Ciência”, coordenado pela professora Maria Tereza Fabbro.

Ariane Cerqueira Joaquim, estudante de Química no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), Campus São José dos Campos. Bolsista do WASH e integrante do projeto “Clube de Ciências Meninas nas Exatas, no Vale elas Fazem Ciência”

Ariane conta que, tanto no ensino fundamental quanto no Ensino Médio, teve professores apaixonados por ciência que a motivaram. Esses professores influenciaram diretamente na sua vida profissional e pessoal. “A ciência é muito ampla e se baseia no princípio da observação”, avalia. “Eu não me considerava uma pessoa observadora, mas, por descobrir a importância da observação, comecei a mudar determinadas atitudes e, através dessa observação, passei a refletir mais sobre situações do meu cotidiano, o que me levou a trabalhar e aprender muitas coisas, como a importância do questionamento e da elaboração de hipóteses para determinados casos”.

Com empolgação, ela afirma que “a ciência é linda e completa” e se declara apaixonada pelas ciências exatas, e em específico as ciências biológicas, da saúde e a química”.

Ariane avalia que se teve um lado positivo da pandemia do coronavírus foi o fato das pessoas descobrirem a importância da ciência e da pesquisa para o bem da humanidade. “Nossos cientistas conseguiram elaborar vacinas em tempo recorde, e o mais bonito foi ver a colaboração dos cientistas do mundo todo. Para mim, a ciência traz essa união de que o mundo precisa”.

Ela aproveita para agradecer também aos seus professores de graduação e em especial à Maria Tereza Fabbro. “Agradeço por ela acreditar no meu potencial e elaborar um projeto tão incrível e, também, ao Projeto WASH por nos incentivar e oferecer a oportunidade de levar o conhecimento científico a mais pessoas”.

A importância de começar cedo

Com apenas 13 anos, Júlia Emanuelle da Silva Alves, estudante do 8° ano do ensino fundamental, na Emef Palmyra Sant’Anna, em São José dos Campos, já descobriu o poder e a importância do conhecimento científico. Há um ano, ela participa do mesmo Clube de Ciências Meninas nas Exatas, em São José dos Campos, para estimular a pesquisa científica entre alunos do ensino médio e graduação.

Júlia Emanuelle da Silva Alves, estudante do 8° ano do Ensino fundamental, na Emef Palmyra Sant’Anna, em São José dos Campos

Para Júlia, a motivação para investir na ciência foi “adquirir conhecimentos na área de Exatas e, também, fazer experiências práticas”. 

A estudante avalia que esse conhecimento pode influenciar na sua vida profissional. “O impacto da ciência na minha vida escolar é o aprendizado extracurricular, algo interessante para meu futuro”. Ela conta que o que mais a atrai na ciência é o estudo da Astronomia.

Júlia também destaca a importância da ciência em tempos de pandemia. “Todos tivemos a oportunidade de acompanhar de perto como a Ciência é precisa e pode ajudar a combater diversos vírus”.

Para Maria Teresa Fabbro, professora de Química no IFSP, campus São José dos Campos, doutoranda no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) na área de Química Materiais e Sensores e coordenadora do “Clube de Ciências Meninas nas Exatas, no Vale Elas Fazem Ciência”, a iniciativa do Projeto WASH de estimular o conhecimento científico “é fundamental para a imersão das crianças e adolescentes na ciência”. “Na escola, muitas vezes, Ciência é uma disciplina isolada, porém, precisamos contextualizar os fenômenos, reações e as transformações que acontecem em nosso dia a dia. Toda criança é curiosa e se a incentivamos a ser mais curiosa ainda, terá mais e mais prazer em aprender ciência”, afirma.

Segundo a coordenadora do Clube de Ciências, esse envolvimento do mundo científico é um despertar. “Mostra que a ciência está em tudo em nossas vidas. E como ela é importante para uma formação cidadã, que todos e todas podem ser o que quiserem, advogados, economistas, engenheiros, e também cientistas que podem ajudar a construir um mundo melhor, resolver problemas e solucionar doenças”.

E quando faltam referências…elas vão à luta

Mariane Dias de Oliveira Genari

Mariane Dias de Oliveira Genari, bolsista do Projeto WASH e graduanda de Medicina Veterinária na Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo

Diferentemente das meninas do Clube da Ciência de São José dos Campos, Mariane Dias de Oliveira Genari, 20 anos, graduanda de Medicina Veterinária pela Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo e, também, bolsista do Projeto WASH, conta que não teve referências no seu cotidiano para voltar-se à ciência. “Conforme fui crescendo e avançando nos anos escolares, as matérias eram a minha principal fonte de estudo, até que no ensino médio eu me encantei profundamente com a biologia, especificamente”.

Mariane acrescenta que se interessou por documentários e outros conteúdos que abordavam o estudo da vida em geral até os avanços tecnológicos na medicina. “Foi aí que eu decidi seguir na área da saúde, com foco em animais”.

Ela esclarece que, “apesar do curso de Medicina Veterinária aparentar ser uma profissão apenas clínica, as áreas de atuação vão para além disso e o leque de possibilidades para um graduado nessa profissão inclui também a saúde pública”.

A bolsista comenta que foi neste contexto que se descobriu na Saúde Única: uma união da saúde humana, da animal e do meio ambiente, esclarece.

De acordo com a bolsista Mariane, “as referências femininas na ciência são praticamente nulas nas citações cotidianas, o que torna difícil para as mulheres terem inspirações que deem mais motivação para seguir nessas áreas”.

Mas ela destaca que “com o avançar dos anos, tem se tornado muito mais relevante a história não contada de todas essas estudiosas que lutaram também pelo nosso lugar hoje, o que nos motiva a fazer o mesmo por todas aquelas meninas e mulheres que, assim como eu, não tiveram em quem se espelhar para ocupar os lugares que a sociedade nos fez acreditar ser impossível!”

A bolsista defende a necessidade de luta permanente para a garantia de mais espaço. “É necessário que sempre lutemos para que nossa voz seja ouvida, que nossos direitos e sonhos sejam respeitados, que as oportunidades cheguem para as mulheres e lhes levem a trilhar os caminhos da vida acadêmica. Nossa união e coletividade vai continuar transformando o meio social em que vivemos, para que amanhã nossa presença esteja gravada em livros, gibis, documentários e em qualquer outro lugar que também é nosso!”, afirma a jovem cientista de 20 anos.

Ciência a serviço da comunidade

Ingressante na faculdade com o Prouni (Programa Universidade para Todos), do Governo Federal, que oferece bolsas de estudos parciais e integrais nas universidades particulares, a bolsista Mariane, moradora da periferia da Zona Norte de São Paulo, lembra que pessoas do seu círculo social enfrentam inúmeras barreiras e isso a inspirou a levar o seu projeto para aqueles que não possuem a mesma oportunidade que ela está vivenciando. “Consegui ingressar na iniciação científica, incentivada pelo Projeto WASH e pelo Movimento sem Terra de Luta (MSTL). Pude construir livremente um projeto para o melhoramento social e eu escolhi levar essa democratização do ensino com o tema “Zoonoses no Cotidiano Urbano”.

Ela conta que com o apoio de uma outra bolsista do WASH, Thaina Aparecida Decio Passos, graduanda de Medicina pela UNIFESP, realizou uma pesquisa com os moradores dos empreendimentos Nelson Mandela e Frei Tito com dois objetivos: a redação de um artigo científico sobre o conhecimento desse grupo populacional acerca do assunto e a produção de um conteúdo audiovisual, também acerca do tema, visando levar a informação de forma dinâmica, simples e educativa para todos.

Com informações do CNPq (dados abertos sobre bolsas); da ONU (sobre mulheres na ciência): https://news.un.org/pt/story/2022/02/1779502;  e, também do site do https://www.gov.br/cnpq/pt-br/assuntos/noticias/destaque-em-cti/dia-internacional-de-mulheres-e-meninas-na-ciencia

Texto: Delma Medeiros e Denise Pereira

Revisão: Nádia Abilel de Melo