“No país da corda bamba”, como cantou, em “Zé Ninguém”, Biquini Cavadão, famílias com crianças ou adolescentes foram as mais impactadas pela crise gerada pela Covid-19, de acordo com pesquisa de 2020 da UNICEF, “Impactos Primários e Secundários da Covid-19 em Crianças e Adolescentes”. Estas foram as famílias que sofreram as maiores reduções de renda.

Consideradas vítimas ocultas, crianças e adolescentes tiveram seus direitos postos em risco: com o fechamento das escolas no ano passado, 44 milhões de meninos e meninas foram diretamente afetados.

O ano escolar de 2020, para a grande maioria dos estudantes do ensino básico no Brasil, foi um ano “perdido”; assim, ao menos, foi o cognome dado pela imprensa e pelo olhar da população. De estudantes que não têm acesso a ferramentas tecnológicas, como um computador, ou acesso à Internet para atender às matérias, a realidades ainda mais amargas, como a dos pequenos e pequenas que, apartados do ambiente escolar, deixam de receber as refeições diárias, a Pandemia, ao mesmo tempo, acirra e escancara os abismos sociais.

Após meses afastados da escola, os alunos devem encontrar inúmeros e inéditos desafios no retorno às aulas, que vêm acontecendo presencialmente e remotamente por todo o país, ao longo dos meses de janeiro a março de 2021. A sociedade testemunha, ainda, a impossibilidade de uma volta presencial completa; o retorno às aulas, em muitos casos, de maneira exclusivamente online e, até mesmo, o fechamento das escolas após a confirmação de um alto número de profissionais positivos para Covid.

Neste cenário de incertezas, como pais,  mães, alunos, professores e profissionais da área podem enfrentar a volta às aulas?

Marilene Proença
Marilene Proença. Arquivo pessoal

Conversamos com a Professora Titular do Instituto de Psicologia da USP – Universidade de São Paulo, Marilene Proença, sobre como as angústias deste período podem ser minoradas. Marilene é mestre, doutora, livre-docente e pesquisadora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP.

“A situação de incerteza nos mostra que não há soluções a priori, nem saídas simples ou mágicas”

Professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano do Instituto de Psicologia da USP, ela coordena o Laboratório Interinstitucional de Estudos e Pesquisas em Psicologia Escolar – LIEPPE e é líder dos Grupos de Pesquisa do CNPq “Psicologia e Escolarização: políticas públicas e atividade profissional na perspectiva histórico-crítica” e “Psicologia, Sociedade e Educação na América Latina”.

Marilene atua como professora do Curso de Graduação em Psicologia da USP, foi editora da Revista Psicologia Escolar e Educacional, é editora temática da Revista Interamericana de Psicologia e membro do Conselho Editorial da Revista Psicologia Escolar e Educacional. É, ainda, membro da Diretoria da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional e presidente da Academia Paulista de Psicologia, ocupando a Cadeira no. 02, Lourenço Filho.

WASH: Como superar as incertezas – é possível? – na volta às aulas, enquanto ainda vivemos a pandemia? 

Marilene Proença: Creio que uma das lições que estamos aprendendo nessa Pandemia refere-se ao fato de que precisamos aceitar as incertezas, o que não conhecemos e o que não controlamos. Estas condições são desafios imensos para nós e para nossas instituições, incluindo a escola. Digo isso, pois, de alguma forma, em nossas vidas e na nossa sociedade que construímos, o planejamento, as metas a serem alcançadas, as ações para o futuro se impõem em nossas vidas. Isso acontece com tal intensidade que pouco sabemos como lidar com o novo, o inexorável ou, ainda, com contingências que nos são impostas, de repente. O ano de 2020 foi um ano de muitas reflexões e desafios para todos nós e nos mostrou que precisamos lidar com as incertezas, que é possível, sim, enfrentar o desconhecido, mas que não podemos fazer isso sozinhos, individualmente.

No caso da volta às aulas presenciais, temos questões muito importantes que precisam ser equacionadas, que envolvem pelo menos três esferas da escolarização: as necessidades de aprendizagem e de convivência de crianças e adolescentes; as possibilidades dos educadores e funcionários escolares e as condições das escolas e das redes de ensino, de forma a dar segurança para esse retorno presencial. O equilíbrio entre as três dimensões que envolvem a escolarização precisa ser encontrado. Todas elas apresentam suas razões e são fundamentais. Nenhuma delas poderá ser considerada unilateralmente. Por isso, vemos o intenso debate e a importância da busca de consensos e de procedimentos conjuntos. A situação de incerteza nos mostra que não há soluções a priori, nem saídas simples ou mágicas, ou ainda, que atendam a um segmento apenas. Todos sofreram e sofrem com a Pandemia, perdem pessoas, vivem dilemas pessoais, são vítimas de muitas experiências difíceis ou ainda protagonizam muitos atos de coragem e de enfrentamento. Portanto, as soluções a serem encontradas coletivamente precisarão levar em conta a diversidade e a desigualdade das condições e ao mesmo tempo a necessidade de diálogo, entendimento e clareza para todos e todas envolvidos nesse processo, visando minimizar o temor do contágio, do adoecimento, de perdas ainda maiores.    

 WASH: O que pais e mães podem fazer para auxiliar os pequenos que voltarão às salas de aula e os que seguirão com aulas a distância?

Marilene Proença: Nessa Pandemia, os pais passaram a protagonizar um lugar novo institucional, que aos poucos estão compreendendo e considerando, de forma a se sentirem mais confortáveis e confiantes nessas condições de vida tão desafiadoras. O susto causado a todos por algo inesperado, a Pandemia de COVID-19, teve como consequência imediata a inserção das tecnologias de informação e comunicação na vida diária das famílias, o ensino remoto. E, com a tecnologia, exigências impostas para que pais ou responsáveis participassem, orientassem, dirigissem os conteúdos; portanto, essas novas tarefas fizeram com que as famílias e responsáveis tivessem que, rapidamente, ocupar um lugar nunca antes ocupado. A casa se transformou em escola, empresa de trabalho, lugar da vida doméstica. Como coube tudo isso em um único espaço de convívio? Foram adaptações e desafios tão grandes que ampliaram índices de violência doméstica, de sofrimento psicológico e de separação entre casais, por exemplo. O alargamento do período de confinamento, as consequências impostas pelas desigualdades sociais foram aspectos que modificaram amplamente a vida de famílias, principalmente daquelas que têm sob sua responsabilidade, crianças, adolescentes e idosos. Portanto, nesse ano em que se prevê o retorno às aulas presenciais, muitas dessas necessidades se fazem presentes na vida das famílias, cabendo a cada uma a decisão que considere melhor para seu contexto de vida. Sabemos que as experiências vividas em 2020 contribuem para tomada de decisões nesse início de ano, com muito mais elementos a serem considerados. O diálogo entre escolas e pais ou responsáveis torna-se central nesse momento.

É importante que os pais possam ouvir seus filhos, suas necessidades, seus medos e incertezas. A escuta dos pais, nesse momento, será fundamental. Também será necessário que não haja uma expectativa de que todos os conteúdos que não foram aprendidos em 2020 sejam agora, rapidamente, apropriados por seus filhos e filhas. Resgatar o desejo de aprender, o interesse pelos conteúdos curriculares, pelo conhecimento, será o desafio maior a ser enfrentado e é o aspecto mais importante para abrir caminho para novos conteúdos.

WASH: Como pais, mães, professores e alunos podem ajudar-se mutuamente no enfrentamento deste período? 

Marilene Proença: Nesse período de afastamento das escolas, as crianças, pais e professores também aprenderam muitas coisas, reviram suas formas de viver e de entender o papel da escola na vida de cada um. Os pais passaram a valorizar ainda mais o trabalho docente, a acompanhar os conteúdos escolares e a reconhecer a centralidade da escola em suas vidas. Conhecer essas reflexões, pactuar formas de enfrentamento dos desafios postos nesse retorno, será fundamental. Considera-se, também, muito importante que as escolas possam ouvir os pais e estudantes e que estes possam ouvir os educadores e gestores. As necessidades de cada um precisarão ser avaliadas por todos e compreendidas para, então, encontrarem saídas conjuntas para os novos desafios que se apresentam.

Portanto, nesse momento de retomada parcial das atividades, o acolhimento de crianças e adolescentes será fundamental, por meio de um olhar solidário e de uma escuta qualificada. Caberá à escola abrir espaços pedagógicos para a expressão de inúmeras experiências que crianças e adolescentes viveram nesse período fora da escola, conhecer seus sofrimentos, aprendizados e desafios nessa Pandemia. Apresentar o que denominamos de um olhar que abraça, pois não poderemos realizar contatos físicos, tão importantes em nossa cultura e em nossas relações.

A escola, em Pandemia, precisará se tornar, mais intensamente, em uma instituição de acolhimento e de conhecimento, de forma a integrar essas duas dimensões: acolhendo as diversidades, compreendendo as desigualdades que foram intensificadas com a Pandemia; valorizando a retomada de espaços de convivência, de aprendizado ao ar livre e de expressão artística, construindo conhecimento sobre a COVID–19, a partir de suas repercussões na vida das pessoas.

WASH: Qual será o prejuízo estimado em perda de conteúdo pedagógico/didático, em formação, mas também social, para as crianças e adolescentes, referente ao ano de 2020, e como esse dano pode ser minorado?

Marilene Proença: Nesse momento, todas as redes de ensino precisaram realizar levantamento diagnóstico, visando compreender, mais detalhadamente, os impactos desses 11 meses de escolas fechadas para os estudantes.

Nesse primeiro levantamento, as avaliações anunciadas pelos gestores estaduais e municipais centram-se em dois aspectos: 1. diminuição de matrículas de estudantes que frequentavam as escolas anteriormente à Pandemia, tanto no Ensino Fundamental II, quanto no Ensino Médio, principalmente oriundos de famílias em condições mais vulneráveis; 2. migração de matrículas do ensino privado para as redes públicas, fruto do desemprego e empobrecimento de pais e responsáveis.

Quanto ao processo de aprendizagem, trata-se de uma avaliação mais complexa, delicada e que precisará ser realizada após um acolhimento dos alunos que retornam aos poucos, depois de tantas situações que foram vividas nesse período. As teorias da Psicologia Escolar e Educacional nos mostram que para que aconteça o aprendizado é fundamental que os conteúdos ensinados tenham significado para crianças e adolescentes. Além disso, esse aprendizado precisará ocorrer em meio a relações afetivas, participativas e dialogadas. Assim, esse contexto de pertencimento das crianças e adolescentes à escola precisará ser reconstruído.

A aprendizagem propiciada pela escola é central na vida de crianças e adolescentes. A escola ocupa esse lugar de importância que, aos poucos, vai se recuperando no retorno presencial à escola. Mas, é importante saber que há conteúdos que não foram possíveis de ser ensinados, o que não significa que não possam ser recuperados, revisados e inseridos de forma significativa para todos os estudantes. Esse será o grande desafio para os envolvidos no processo de aprendizagem: atuar de forma a compreender esse momento em que estamos, ser flexíveis e criativos, articulando convivência escolar e conteúdos curriculares. Essas duas dimensões são inseparáveis no processo de aprendizagem escolar.

Redação: Bárbara Beraquet

Revisão: Nádia Abilel