Como a história de grandes mulheres da África pode ajudar a combater o racismo no Brasil, dar visibilidade a novos personagens, ampliar o poder de fala da população negra e auxiliar na questão da identidade, além de romper com estereótipos? Essa temática inspirou uma jovem pesquisadora, aos 17 anos, que já conquistou premiações e, agora, batalha para apresentar seu trabalho numa feira internacional na Colômbia
Se alguém perguntasse em uma roda de estudantes quantos países integram o continente africano, é muito provável que a maioria teria dificuldade para chegar à resposta certa: 54. Se a questão fosse sobre os países que enviaram negros para serem escravizados no Brasil, talvez, houvesse alguns acertos. Agora, se a gente tentar aprofundar sobre o que conhecem os alunos sobre as culturas afro-brasileira e africana, predominantemente, eles dirão que estudaram a escravidão e quase nada a mais. Talvez, alguma manifestação cultural como a capoeira.
Questões simples como essas seriam do conhecimento dos alunos das escolas brasileiras se as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008 ─ que tornam obrigatório o ensino da História e da Cultura afro-brasileira e africana para alunos dos Ensinos Fundamental e Médio, em todas as escolas (públicas e privadas) do país ─ fossem efetivamente colocadas em prática. Então, como dar voz a essa história silenciada? E como o acesso a essas informações pode ajudar a combater o racismo ao abordar a questão da representatividade e identidade?
Uma bolsista do Programa WASH, que finalizou o Ensino Médio, em 2019, no Instituto Federal – IF (Registro-SP), no Vale do Ribeira, dedicou o seu trabalho de iniciação científica a esse esforço: ajudar as escolas a cumprirem essas diretrizes.
Lígia Santos de Oliveira é a autora da pesquisa intitulada Grandes Mulheres da História da África, que integra um projeto mais amplo sobre “Reis e Rainhas da África”, que nasceu com objetivo de construir material didático sobre reis e rainhas africanas, enquanto figuras representativas, coordenado pelo professor André Luigi, 37, bacharel e licenciado em História pela Universidade de São Paulo (USP), especialista em Ensino de História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), mestre em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e cursando o doutorado.
Pesquisa reconhecida – O estudo da ex-bolsista ganhou destaque em feiras de Ciência de todo país. O seu trabalho foi vitorioso na Feira de Ciência do Vale do Ribeira (FECIVALE), em 2019; e foi indicada para a 18ª Feira Brasileira de Ciências e Engenharias – Febrace, da Escola Politécnica da USP, em 2020. Nesta competição como finalista, teve seu trabalho credenciado para representar o Brasil no Encuentro Internacional Colomnbista de Ciencia, Inovacion y Empreendimiento, pela Associação Brasileira de Incentivo à Tecnologia e Ciência, que acontecerá em agosto de 2021, em Valledupar, na Colômbia (leia mais, abaixo, sobre essa participação).
O projeto inicial do professor Luigi foi concebido para professores e ele idealizou que a proposta fosse uma ferramenta para formação dos educadores no enfrentamento contra racismo. Quando atuou no Instituto Federal, em Registro, ele adaptou a proposta, mas sem perder de vista a dimensão de envolver a internet, sobretudo apostando numa linguagem mais jovial e, também, nos estudantes. Foi, neste momento, que houve a aproximação entre o professor e a estudante.
Luigi critica que a História da África nos livros didáticos é apêndice da história da Europa. Segundo o professor, “a história da África ocupa apenas capítulos ou pequenos fragmentos nos livros didáticos – são séculos de histórias e civilizações contados em duas ou três aulas.”
O professor defende um lugar específico para essa abordagem. Luigi argumenta que esse é um campo com suas especificidades, que precisa ser trabalhado a partir da desmontagem de vários preconceitos, por exemplo, a história de primitivo e a de civilização como sinônimo de progresso. “É preciso se desfazer de um conjunto de estereótipos. E isso acontece, também, com a questão de gênero. E foi seguindo na construção desse campo, que surgiu o projeto da Lígia”. O trabalho teve a coorientação de Iamara Nepomuceno, mestre em História de Moçambique pela USP, e que contribuiu muito no enfoque da questão de gênero, informou.
Ele afirma que o ensino da cultura afro-brasileira e africana é tratado como uma única coisa, quando são temáticas diferentes. “Na África, temos grandes civilizações, grandes impérios e o povo negro não era escravizado. Até em suas contribuições, elas são distintas: uma vez que a história africana contribui para combater o racismo, para fortalecer a identidade do jovem; e a história afro-brasileria é marcada por essa ‘chaga’ da escravidão”.
Questão de gênero e de raça
Lígia destaca que, no decorrer do trabalho, sentiu a necessidade de focar, inicialmente, nas mulheres, pela questão de gênero, porque no contexto da história da África existe um silenciamento maior sobre as mulheres em relação aos homens. Também pela questão das mulheres negras enquanto figuras representativas. “Foi isso que definiu o recorte da pesquisa Grandes Mulheres da História da África dentro do projeto inicial”.
Segundo a estudante, a legislação reforça a importância de seu trabalho; e foi buscada uma forma mais recreativa para difundir esse conhecimento. “Produzimos um site que tem material paradidático que facilite o acesso a essa informação, com o intuito de auxiliar no cumprimento da legislação”; e, em breve, vamos produzir um vídeo sobre a primeira personagem.”
Desafiando preconceitos:
Para Lígia, os desafios de construir um trabalho como este não estão na pesquisa, mas na escolha da temática. A estudante defende que falar sobre a história do povo negro não é tarefa simples. “Confesso que fui muito criticada. Em alguns momentos tive vontade de parar. Pensei até que não fosse necessário, que poderia ser um “mimimi” trabalhar com a história da população negra. Mas sabia que a gente precisa estudar a história do negro, saber e conhecer essa história para aplicar no dia a dia. Houve, ainda, a dificuldade, sobre a forma como as pessoas recebem essa pesquisa, por achar que isso não é tão necessário.”
Referências e apropriação
Ligia conta que a líder que escolheu para trabalhar foi a faraó Cleópatra, popularmente lembrada pela história. A personagem ajudou na compreensão e numa nova visão em relação à história das mulheres africanas. “Eu imaginava que a história dela era de uma forma; e vi que, se você estuda profundamente, você percebe que ela não é reconhecida apenas por ter liderado o Egito contra o Império Romano, mas que por ela ter feito isso, várias nações quiseram apropriar-se da sua representatividade e imagem. Há várias disputas: a Ásia diria, ela é asiática; os europeus, que ela era europeia; outros que ela era do continente africano ou da Mesopotâmia. Como ela foi uma grande figura representativa existem essas disputas pela sua nacionalidade.
De acordo com a estudante, existem várias formas, tonalidades, corpos e cabelos para associar à Cleópatra; e os mais populares são aqueles que não se assemelham a mulher negra, embora o Egito fique no continente africano. “Foi muito importante essa discussão sobre apropriação para entender a história da África. Nós não podemos afirmar, categoricamente, que ela era negra, mas eu posso questionar por que ela não poderia ser negra e por que essa hipótese foi a mais descartada. Por que a inteligência dela não poderia ser de uma mulher negra? Então, esse primeiro tema me abriu completamente para o meu trabalho.”
Site ETNIAR
O site Etnia[R] é um dos espaços de divulgação da pesquisa, que contará, futuramente, com um vídeo, com tradução em Libras, sobre o verbete de Cleópatra, primeira mulher abordada em sua pesquisa. O site é de um grupo de pesquisadores da região do Ribeira. O nome do grupo é Etnia [R] e trabalha com várias questões da memória, da identidade da população quilombola, da população indígena e da população tradicional do Vale do Ribeira como um todo.
O professor Luigi esclarece que o site está em construção, mas já conta com mapas, que serão vetorizados, com resumos de cada civilização africana e a periodização da história da África, de forma bem simples e introdutória. “Existem poucas bibliografias em português sobre a História da África e a maioria é paradidática, comenta. Nosso site pretende ser mais uma ferramenta pra divulgar essa história.”
Trabalho precisa de apoio financeiro para ser apresentado na Colômbia
Mesmo com as premiações, a pesquisa realizada por Lígia e seus orientadores busca apoio financeiro para ser apresentada na Colômbia, em 2021, a data do evento ainda não está confirmada.
“A única possibilidade de participação seria uma arrecadação para os custos de passagem e hospedagem, via financiamento coletivo”, conta. O orientador do trabalho já abriu mão de estar lá, e diz que todos os esforços serão concentrados no custeio da estudante. Interessados em contribuir podem fazer contato pelo email da estudante: santosligia2641@gmail.com.
Luigi ressalta que as feiras de Ciência seguem uma lógica de eventos regionais, nacionais, internacionais e mundiais “Já vencemos duas etapas. O trabalho da minha orientanda foi vitorioso em dois momentos e credenciado para a Feira Internacional, na Colômbia, uma oportunidade que não pode ser descartada; por isso os esforços de mobilização e apoio são necessários.
Textos: Denise Pereira
Revisão: Nádia Abilel de Melo
Fotos: Arquivo Pessoal Lígia Santos de Oliveira

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