Na Semana da Consciência Negra (de 15  a 21/11) e das comemorações do Dia de Zumbi, em 20 de novembro, o Programa WASH não fugiu ao tema, que é uma verdade tão inconveniente à nação e à humanidade: o racismo, com seus efeitos perversos, violentos e desumanos. Para abordar a questão, nossa convidada foi Bianca Santana, jornalista e escritora, doutora em Ciência da Informação e mestra em Educação pela Universidade de São Paulo.

Bianca é autora de “Quando me descobri negra” e de uma biografia (em processo de edição) de Sueli Carneiro, filósofa e fundadora do Geledés — Instituto da Mulher Negra. Pela UNEafro, colaborou com a articulação da Coalizão Negra Por Direitos e agora se dedica à estruturação do Instituto de Referência Negra Peregum.

Durante o diálogo, Bianca aponta que “a sociedade brasileira já admite que o racismo existe e que nas tensões sociais que aumentam, explicita-se uma questão racial, porque os racistas já deixaram de ter vergonha ou de querer esconder o seu racismo”.

A jornalista e escritora mostra-se mais realista do que otimista, em relação ao preconceito racial.  “Temos um longo caminho para depurar os efeitos da escravização e do racismo, que vai se atualizando e se sofisticando no Brasil.”

Bianca afirma que “o Brasil sabe que é negro. Mas, o Brasil tem, nas suas estruturas de poder, brancos que se beneficiam, economicamente, do não reconhecimento dessa negritude”.

Ela vê, ainda, intencionalidade do estado, no aprofundamento do racismo, quando ele direciona “como políticas públicas mais efetivas para a população negra, políticas genocidas, seja nos assassinatos de jovens negros, seja nas políticas de abandono à morte a população negra, seja nos feminicídios, sobretudo, de mulheres negras”.

O WASH convida a todos para essa conversa que trata da nossa essência, enquanto nação.

WASH: O racismo é uma ferida que nunca cicatrizou no país. É estrutural, está nas nossas entranhas; mas, hoje, a gente pode dizer que essa ferida sangra de forma hemorrágica, sobretudo, com a ascensão da direita e da extrema-direita? Esse cenário está escancarado aqui, no Brasil, e nos Estados Unidos. Nós temos um cenário muito complexo, neste momento, em relação ao crescimento do preconceito racial: o que era velado agora é muito latente. A gente tem a sensação de que as pessoas perderam a vergonha de serem racistas?

Bianca Santana: O cenário do Brasil é bastante diferente do cenário dos Estados Unidos. A história é muito diferente, também. Apesar de depois do episódio de George Floyd, muitas vezes, esse paralelo é feito. Aqui, no Brasil, parte da forma como o nosso racismo impera, é não tratar diretamente do tema. Por décadas, o mito da democracia racial foi propagado enquanto existia uma série de ditos e não ditos, que não permitiam – e como até hoje não permitem – que a população negra acesse determinados direitos. Já, nos Estados Unidos, existia um apartheid legal, explícito – Lei de Segregação Racial. No Brasil, nunca precisou ter uma lei para que determinados locais não fossem acessados por pessoas negras. Mas, ainda assim, até antes da pandemia, era comum a gente chegar a um restaurante e não ter ali uma única pessoa negra como consumidora, mas ter algumas como trabalhadoras. Esse mito, como você coloca na sua pergunta, não cola mais. A sociedade brasileira já admite que o racismo existe e que nas tensões sociais que aumentam, explicita-se uma questão racial, porque os racistas já deixaram de ter vergonha ou de querer esconder o seu racismo. E estão expressando seus valores absurdos, autoritários e de desejo de morte, daqueles que eles consideram os outros, aqueles que não são dignos, os que não são humanos.

NR: George Floyd foi um negro assassinado/estrangulado, em maio deste ano, em Minneapolis, nos Estados Unidos, por um policial branco; fato que intensificou o  movimento mundial “Black Lives matter”.

WASH: A Sra. afirma que se descobriu negra aos 30, e o Brasil já começou a se descobrir negro ou teremos muita estrada pela frente?

Bianca Santana: O Brasil sabe que é negro. Mas, o Brasil tem, nas suas estruturas de poder, brancos que se beneficiam, economicamente, do não reconhecimento dessa negritude. O tempo inteiro, a gente assiste jogos de palavras, jogos de poder, jogos de identidade, com as pessoas negras. Em alguns momentos, todos os seres humanos são iguais no Brasil. Em outros momentos, a pessoa negra é aquela que ocupa um espaço subalterno. Eu só reconheço um corpo negro quem ocupa esse lugar de subalternidade. E esse jogo, o tempo todo, atrapalha a identidade racial. Isto me parece bastante intencional de um Estado que direciona como políticas públicas mais efetivas para a população negra, as políticas genocidas, seja nos assassinatos de jovens negros, que crescem – infelizmente,  no Brasil, especialmente aqui, no estado de São Paulo, durante a Pandemia; e, também, nas políticas de abandono à morte, no deixar morrer, como a gente pode ver agora com a COVID-19, com a maior parte das vítimas sendo  homens negros. Dá para ver isso, também, no feminicídio. Entre 2003 e 2013, o feminicídio entre mulheres brancas caiu 9,8%; já entre as mulheres negras aumentou mais de 54%. Ao não oferecer políticas de proteção às mulheres negras, significa que o Estado também abandona essas mulheres negras à morte.

WASH: Eu li uma frase muito impactante da Sra., em uma entrevista, na qual a Sra. diz que “… a gente carrega uma memória ancestral de sobrevivência muito preciosa. Nós, negros e negras sobrevivemos ao fim do mundo todos os dias.” A pandemia agravou ainda mais isto. Existe esperança de mudança, a Sra. é otimista?

Bianca Santana: Eu não sou otimista, mas eu tento olhar a história sem ter o nosso tempo de vida como único parâmetro, porque se eu for levar só o meu tempo de vida em consideração, eu não vou ver nenhuma mudança significativa em relação ao racismo no Brasil. Mas, se eu considerar que a escravidão negra durou quase 400 anos e que a abolição aconteceu há 132 anos, eu vou ver que a gente tem um longo caminho para depurar os efeitos da escravização e do racismo, que vai se atualizando e se sofisticando no Brasil. Eu acho bastante realista pensar que a gente está num caminho de mudanças e que a nossa ação, hoje, é muito importante para pavimentar esse caminho de mudanças; mas, não vai haver um resultado efetivo e revolucionário no nosso tempo de vida, pelo menos ao meu ver.

WASH: A gente tem um público majoritariamente jovem no Programa WASH. O que a Sra. diria para esse público como corresponsável na construção de uma sociedade mais igualitária?

Bianca Santana: A juventude é, sem dúvida, grande responsável pelas mudanças que a gente pavimenta. E, quem sabe, essa juventude não seja beneficiária dessas mudanças, num futuro não tão longínquo, porque a gente espera que a Lei 10.639 tenha permitido a essa juventude acessar mais na escola, mais aspectos da África Negra e da História Afro-brasileira, mais acesso a livros, a conhecimentos, a uma pluralidade de versões; ajude a formar uma sociedade mais crítica da sociedade; e que jovens negros e negras assumam consciência racial mais cedo, descubram-se negros e negras antes; tenham orgulho de sua cor, do seu cabelo, da sua história, da sua ancestralidade; e que a juventude branca não compactue com o racismo, que ela consiga perceber que, por ser branca, numa sociedade racista como a brasileira, ela se beneficia do racismo, mas não se compactua com o racismo; e que se coloque a serviço de desmantelar a estrutura racista do Brasil.

WASH: A gente percebe uma presença muito intensa de mulheres negras, como vozes contra o racismo, hoje, na sociedade e na literatura. O reforço feminino nessa luta, que é de todos, tem sido o diferencial para os avanços?

Bianca Santana: As mulheres negras perceberam-se como sujeito político específico, que precisa lutar tanto contra o racismo, quanto contra o sexismo e a desigualdade de classe, a desigualdade social, há algum tempo. Como movimento organizado de mulheres, pelo menos, desde as décadas de 70/80, aqui, no Brasil, essas mulheres têm um acúmulo coletivo para a transformação da sociedade que olha por muitas frentes diferentes. É uma visão bastante completa; por isso, essas mulheres parecem bastante preparadas para enfrentar os desafios que a gente tem que enfrentar.

WASH: Eu gostaria que a Sra. dissesse quais são suas maiores referências na luta contra o racismo?

Bianca Santana: Minhas principais referências na luta contra o racismo são a Sueli Carneiro, filósofa, fundadora do Geledés (Instituto da Mulher Negra); o Edson Cardoso, que foi, por muitos anos, do Movimento Negro Unificado (MNU), e que, hoje, é do Ìrohín – Centro de Documentação e Memória Afro-brasileira; o Milton Barbosa, que também foi fundador do MNU; e  Rafael Pinto; e que já se foram: Luiza Bairros (1953-2016), administradora, doutora em Sociologia pela Universidade de Michigan e ex-ministra- chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Brasil, no Governo Dilma, (2011-2015); Lélia Gonzalez, historiadora, filósofa e antropóloga social (1935-1994); enfim, daria para ficar muito tempo, aqui, nesta lista.

NR– datas, que acompanham os citados nesta resposta, foram inclusas pela jornalista.

Redação: Denise Pereira

Revisão: Nádia Abilel de Melo

Fotos: Arquivo Pessoal de Bianca Santana

NR: Nota da Redação

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