Evento na próxima quinta, dia 12/11, será transmitido pelo Canal de Direitos Humanos da Unicamp, no YouTube, às 10h30; e integra comemoração do Mês da Consciência Negra, na Universidade
Esqueça tudo o que te disseram e o que foi constantemente reforçado nos meios de comunicação e pelo senso comum, a respeito de que atletas negros são mais propensos a se destacar em alguns esportes, como se a raça negra apresentasse uma predisposição a brilhar mais em uma ou outra modalidade esportiva, por um “determinismo genético” – geralmente, aquelas modalidades que envolvem força. Quem nos direciona para esse debate de desconstrução deste “mito esportivo” e nos chama à reflexão sobre o racismo, que contorna essa ideia, é o bolsista do Programa WASH e estudante do segundo ano de Biologia, no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Gustavo Andrade, 23 anos.
Andrade fará essa discussão (palestra), junto com uma exposição, sob título Falácia do Gene Negro para o Esporte, na próxima quinta-feira, dia 12 de novembro, às 10h30, no Canal de Direitos Humanos da Unicamp, no YouTube, dentro das atividades em comemoração ao Mês da Consciência Negra, na Universidade. Não é necessária inscrição prévia para acompanhar.
Além de cursar essa graduação, Andrade tem formação técnica em Meio Ambiente e em Biotecnologia, pela Escola Técnica Conselheiro Antônio Prado – ETECAP, em Campinas, e sonha em ser professor.
“Existe uma falácia que o negro só é bom no Atletismo e não no Xadrez, na Natação e em outros esportes de elite; mas, geneticamente, não existe nada que comprove a superioridade da raça negra para essa força propalada”. O estudante aponta que essa questão envolve muito mais o preconceito (o racismo), influências culturais e, fortemente, econômicas, nesta definição.
Se excluirmos algumas modalidades como o basquete, o futebol e o atletismo, que podem ser praticados em espaços sem restrições, nas ruas, campinhos, em quadras públicas, os demais como a natação, a ginástica, o tênis, exigem investimentos econômicos que as famílias negras, por questões socioeconômicas, não conseguem garantir às crianças, exemplifica. “A questão econômica pesa muito mais na definição das modalidades que o negro vai escolher ou poder fazer no esporte”, defende.
Outro ponto destacado por Gustavo Andrade é a questão do espelhamento e representatividade. “É mais fácil, a criança se inspirar, na escolha de um esporte, em um atleta do basquete, porque existem negros ali, do que na Natação, onde há poucos representantes pretos. O Brasil tem um único negro medalhista na Natação”, lembra. Ele se refere a Edvaldo Valério, baiano, primeiro atleta negro a representar o Brasil na natação e o único medalha de bronze no revezamento 4X100, nas Olimpíadas de Sydney (em 2000).
O estudante comenta, ainda, que, desde o início do Século XX, existe a cultura de atléticas em países como os Estados Unidos. “Lá, no passado, os americanos já mandavam para as olimpíadas estudantes e não profissionais atletas para as disputas, o que possibilitou construir uma cultura de incentivo/alinhamento/parceria entre educação e esportes, que não acontece aqui, no Brasil. Existia, há séculos, essa cultura de que a Universidade é a sua entrada para o mundo do conhecimento e também dos esportes, que nós não temos.”
De acordo com Andrade, sempre existiu essa construção de que o negro está associado à força e não aos esportes de reflexão, como o Xadrez, cita. “Um pensamento preconceituoso”. Ele afirma que até alguns artigos trazem a questão do peso ósseo, do peso do esqueleto da população negra como um influenciador, o que poderia definir a maior presença em algumas modalidades – na natação, por exemplo, usa-se muito isso para explicar a reduzida presença do negro no esporte.
Gustavo lembra grandes nomes do esporte como o norte-americano Cullen Jones, medalhista do Ouro, na Natação, em 2008, no revezamento 4/100; Simone Biles, ginasta olímpica, na modalidade ginástica artística, com 25 medalhas mundiais, sendo 19 de Ouro; o enxadrista Maurice Ashley, Grande Mestre Internacional de Xadrez e Ângelo Assumpção, ginasta brasileiro, Ouro na Copa do Mundo de Ginástica Artística, em 2015, que devem ser usados como exemplos para romper, em definitivo, esse discurso.
Sobre a palestra
Andrade conta que achou oportuno trazer essa discussão para o evento, porque gosta muito de esportes, de jogar Xadrez e Basquete, e decidiu fazer esse trabalho também influenciado pelas questões raciais que eclodiram neste ano.
O estudante também lembra de outros atletas como o ginasta Ângelo Assumpção, que foi desmotivado a seguir a carreira, após episódios de racismo.
Para sua apresentação, o estudante antecipa que vai abordar a questão socioeconômica; depois, focar mais na questão da sua área – Biologia – trazendo o que é gene, o que é genoma (conjunto de genes), a questão do DNA (abordagem da molécula), porque é um campo que gera muita confusão; e trazer algumas pesquisas sobre o tema.
Sobre as abordagens estudadas, ele deve citar um trabalho norte-americano, em que três pesquisadores analisam atletas negros, brancos e asiáticos, logo após o recorde mundial conquistado pelo jamaicano Usain Bolt, nos 100 metros no atletismo (com a impressionante marca de 9,58s, em 2009). A pesquisa, de 2010, apontou que os negros seriam 1,5% melhores para correr e os brancos 1,5% melhores para nadar. Ele conta que a pesquisa trouxe enormes questionamentos e divergências. Ele argumentou que existe uma extrema complexidade numa pesquisa sobre gene, porque sempre existirá a questão das mutações, as influências dos padrões de vida, que podem ativar um ou outro gene X ou Y”.
Outra pesquisa de 2003, na Austrália, citada pelo estudante, revelou que corredores australianos apresentavam um gene, que influenciava na retração muscular, fazendo com que esse grupo de atletas corresse mais. Esse gene, apesar de comum em grande parte da população australiana, poucos conseguiam ativá-lo. E esse ponto trouxe uma reflexão: “como ele não é encontrado na população negra, porque se justificaria essa habilidade e superioridade para correr neste grupo, então?”.
“Com este trabalho, quero contribuir nestas reflexões, com esclarecimentos e na mudança de concepções equivocadas, muito baseadas em estereótipos”. Gustavo reafirma que a falta de ícones, do espelhamento, é uma barreira muito maior do que a questão genética para os futuros atletas.
O Brasil das falácias
Existem outras falácias que ainda agravam esse preconceito, complementa o futuro biólogo. “É a falácia dentro da falácia e o futebol é um bom exemplo”, explica. Se por um lado, a modalidade aparece como tábua de salvação para os meninos negros; por outro, dentro do futebol, dizia-se, há pouco tempo, que goleiro bom não poderia ser negro. “Neste caso, a questão cultural se sobrepôs”. Ele rememora que um fato marcante para a sociedade, que foi a perda da Copa do Mundo, em 1950, construiu essa mitologia. “O nosso goleiro à época, era um negro, e se estigmatizou que negros não mais serviam para serem bons goleiros e isso pesa até hoje, ainda que venha sendo aos poucos mudado”.
A ruptura dos preconceitos
Segundo Gustavo, a mudança desse cenário passa pela questão do incentivo ao Esporte de braços dados com a Educação. “Nós temos modelos importantes como o basquete americano, muito atrelado às faculdades americanas, como referências positivas”, diz. “A representatividade negra, a ocupação dos espaços e, também, o posicionamento dos atletas podem contribuir para reduzir essas falácias, mas pouco se fala sobre esse tema, que tem raízes no racismo”.
O conhecimento e os estudos podem contribuir muito para a quebra desses preconceitos, argumenta. “Um exemplo que podemos citar como referência foi a importante mobilização dos atletas do basquete americano, no Caso George Floyd, que foi o estopim do #BlackLivesMatter, movimento que ganhou o mundo contra o racismo, em 2020. No Brasil, uma atitude coletiva tão significante assim é quase impensável”.
Textos: Denise Pereira
Revisão: Nádia Abilel de Melo

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