Entrevista com a educadora Carolina Coronado Hadad

Educadora há mais de 20 anos, especialista em Alfabetização, Carolina Coronado Hadad, se define como brincante da Cultura Popular, formadora, contadora de Histórias e educadora para a sensibilidade. Ela foi convidada pelo Programa WASH para um diálogo sobre a importância do brincar na infância, o uso excessivo das tecnologias por crianças e o sequestro do tempo da infância quando a criança é obrigada a trabalhar, além do papel das famílias nestes pontos. Ainda, destacou o consumismo na infância  e impactos da publicidade para este segmento. “As crianças movem grande parte da economia hoje em dia. Isso é abusivo e violento. O tempo que se submete as crianças às telas garante que essa luta seja ainda mais difícil de ser vencida”.

Carolina atua com Educação Infantil e nas séries iniciais com enfoque no livre brincar, vivências com a natureza e Cultura da Infância. É cocriadora com crianças da hashtag #MovimentoRaizes e fundadora da empresa Movimento Raízes, garantindo o brincar e a cultura da infância, espalhando sementes a educadores, famílias e pessoas interessadas e preocupadas com a infância. Atualmente,  é coordenadora Pedagógica da Educação Infantil e séries iniciais no Colégio Paulo Freire de Jundiaí, onde trabalha com uma turma de 1º ano.

A educadora também aponta outra violência contra a infância. “Definir cores ou com o que a criança brinca por conta de gêneros, uma prática machista e sexista que leva a um crescimento conturbado, distorcido da realidade e sem a menor empatia”, alerta.

WASH: Qual a importância do brincar para o desenvolvimento cognitivo da criança?

A criança aprende através do brincar. Seu universo é lúdico e cheio de experimentações. É no brincar que a aprendizagem acontece de forma potente e permanente. O brincar está na essência de qualquer criança, ela sabe o que fazer. Sem brinquedo nenhum, ela é capaz de criar até com suas próprias mãos, seja na idade que for. O bebê brinca com os pezinhos e com seus dedinhos; quando engatinha, experimenta velocidade, corre atrás de bichinhos, da folha que voa; ao se colocar de pé, abre portas de armários em busca de objetos desconhecidos; e conforme vai se desenvolvendo, busca na sua imaginação e criatividade o fazer, o movimento para suas brincadeiras.

Nem sempre o brinquedo estruturado é necessário. Muitas vezes, os elementos da natureza de um quintal viram bonecas, carros, aviões, folhas viram saias, tecidos viram casas, palitinhos viram pessoas. Nesse movimento do livre brincar, a criança aprende e apreende muitos dos conceitos que tentamos desenvolver de forma artificial e sem sentido.

WASH: No mundo atual, nossas crianças brincam pouco?

Os eletrônicos levaram nossas crianças a um imediatismo que se torna um grande obstáculo para o brincar. O tempo que se fica no eletrônico toma o tempo de criação e de imaginação da criança.

Muitas vezes seus movimentos amplos e expansivos necessários ao brincar ou mesmo a atenção e presença que exigem se tornam um problema que acaba sendo resolvido com o eletrônico, que a mantém sentada e em silêncio. O eletrônico se tornou um brinquedo que a mantém sob um controle imaginado pelo adulto que não busca outra alternativa para satisfazer a criança.

A essência do brincar, a sensibilidade das crianças está sempre latente dentro delas, e em algum momento ela precisará sair, saltar para fora e reverberar pelo ar, pelo espaço da casa, pelos objetos, barulhenta, enchendo todos os ambientes. Penso que essa expansão está sim limitada, não por opção das crianças, mas pela decisão e controle dos adultos, infelizmente.

WASH: A Pandemia influenciou, negativamente, no processo de brincar?

A pandemia, de certa forma, obrigou as famílias a se aproximarem e a conviverem de forma mais presente. A rotina familiar que antes era de acordar, ir para a escola e só se encontrar novamente à noite para jantar, tomar banho e dormir, se tornou intensa e necessária.

Muitas famílias têm se aproximado mais e descobrindo momentos e formas valiosas de se relacionar. Outras mantém o afastamento, mantendo as crianças ocupadas e controladas nos eletrônicos, para que possam trabalhar. Acredito que essa parte das famílias, que aproveitou a oportunidade positiva da pandemia para se aproximar, tem garantido a qualidade do brincar com presença e expansão.

Prefiro ser otimista e pensar que parte das nossas crianças, com certeza, está sendo beneficiada, nesse sentido. Apesar de haver uma grande parcela ainda mais afundada em uma rotina individualizada e sem relações saudáveis.

WASH: Qual a importância da participação dos pais e familiares no brincar, na infância?

Criança quer presença, quer tempo de qualidade. Não quer ficar sozinha, brincando sem interação. Tem sido desafiador para nossas crianças estar em casa, sem seus amigos, com seus próprios brinquedos, sem as trocas riquíssimas que acontecem entre crianças. Muitas delas não têm irmãos para interagir, ou se tem, suas relações não são, assim, tão prazerosas.

O envolvimento dos familiares, nesse contexto de pandemia, é fundamental. Garantir um tempo de qualidade com as crianças, sem celular, sem trabalho, sem distrações, sem outros afazeres, é necessário e urgente. A criança não precisa de quantidade, mas de qualidade de tempo, de relação.

A pandemia veio escancarar essa urgência. Que após esse momento, hábitos familiares sejam mantidos e fortalecidos e que ao longo do tempo a qualidade seja ainda mais potencializada. A criança aprende pelo exemplo, pelo modelo, pelas atitudes dos adultos e não pela conversa.

WASH: Qual o impacto de uma vida sem brincadeiras? É comum a gente ouvir, sobretudo, numa visão popular, que trabalhar não mata e que as crianças do passado trabalhavam. Mas, o trabalho infantil sequestra o tempo para o brincar e o sonho das crianças. Eu gostaria que a Sra. falasse sobre este tema. A infância é um tempo que precisa ser cultuado.

O brincar desenvolve habilidades únicas na etapa da infância de qualquer ser humano. O brincar faz parte do desenvolvimento humano. Pensar a longo prazo, que essa etapa sendo menosprezada pode estar afetando parte do desenvolvimento de uma pessoa em toda sua vida, nos faz refletir sobre a importância desse movimento.

A criança que precisa usar o seu tempo para trabalhar, ao invés de puramente brincar, vai buscar na sua essência da infância o brincar através do trabalho. Ela vai ludicamente procurar transformar o trabalho em brincadeira. Não que isso seja saudável, não é! Esse fato mostra o quanto é forte a necessidade do brincar como parte do desenvolvimento infantil.

Quando a criança é tolhida dessa necessidade, porque para além do direito que ela tem de brincar, é uma necessidade fisiológica, uma violência brusca é praticada. Substituir esse brincar por trabalho então, é ainda mais agressivo e invasivo, tendo em vista que será uma prática não desejada e não recomendada para crianças.

WASH: Sobre o brincar, existem brinquedos ou brincadeiras ideais?

Existe o que a criança gosta de brincar. Existe a afinidade que ela tem com o seu imaginário. Mas existe também um repertório que pode e deve ser ampliado pela sua ancestralidade, pelos que vieram antes dela e deve ser transmitido pelos seus pais, avós, bisavós, tios e tias etc. E, também, existe um repertório que pode ser ainda mais ampliado pela escola e pelas vivências com crianças com quem brinca para além da escola e da família. Isso é a Cultura da Infância. E mantê-la viva é essencial!

Os brinquedos criados e construídos com elementos da natureza, imaginando o que pode vir a ser um graveto, as folhas, os cipós, flores, sementes, dando vida a algo inanimado também pode ser instigante e inspirador.

 Adentrar em um bosque ou uma mata mais fechada, entrando em contato com os elementos naturais desse local, experimentando todos os seus sentidos e realizando investigações profundas através de uma lupa, do toque com as mãos, sentindo os aromas e ouvindo os sons mais misteriosos, leva a criança a um imaginário potente e engrandecedor.

O brincar é cheio de possibilidades. O fato de observar um adulto que brinca a cultura popular de seu povo, de estar inserida em um meio brincante amplia a visão da criança para um brincar para além da infância. Criar seus adereços, seus brinquedos, dar vida ao seu imaginário, falar em voz alta o que seus pensamentos gritam em sua mente, gesticular amplamente como se estivesse – e está – em outro mundo, são direitos que deveriam ser garantidos pelos adultos a sua volta como algo sagrado.

WASH: Nós temos, por um lado, uma massa de crianças sem brinquedos e, uma legião de crianças, com muitos, até de forma exagerada. Quando o consumo exagerado por brinquedos deve ser combatido?

Existe um grande movimento sendo levantado por pessoas preocupadas com a sacralidade da infância, levantando bandeiras pelo não consumismo e contra a publicidade infantil. É uma transgressão sem tamanho, um crime contra a infância, estimular o consumismo através da publicidade como se tem feito nos últimos anos.

As crianças movem grande parte da economia hoje em dia. Isso é abusivo e violento. O tempo que se submete as crianças às telas garante que essa luta seja ainda mais difícil de ser vencida. As famílias tem um papel fundamental nesse processo. Olhar com atenção e cuidado para o que assistem, passar filtros e bloqueios restringindo o acesso aos meios digitais, limitar o tempo de exposição aos eletrônicos, são providências urgentes e imediatas!! As crianças sem brinquedo ou com poucos brinquedos com certeza são infinitamente mais felizes e protegidas dessa violência. A criança sem brinquedos cria suas brincadeiras e cresce de forma mais criativa e saudável.

WASH: Como combater essa questão de brinquedos para meninos e para meninas, também? Qual o papel do professor e da escola para trabalhar o lúdico, respeitando o desejo da criança?

Outra violência sem tamanho. Definir cores ou com o que a criança brinca por conta de gêneros, uma prática machista e sexista que leva a um crescimento conturbado, distorcido da realidade e sem a menor empatia.

A criança que não tem suas escolhas limitadas mantém o seu olhar empático para qualquer ser vivo assim como ela. Cresce entendendo que todos somos partes de um mesmo todo, todos somos natureza, somos todos um. Cresce entendendo e defendendo que todos temos os mesmos direitos justamente por sermos diversos. E que essa diversidade é fundamental para o nosso crescimento. Não faz o menor sentido fazer distinções.

WASH: E, por fim, o brincar pode influenciar na carreira profissional das crianças?

As crianças pequenas imitam o fazer dos adultos. Elas brincam recriando ações dos adultos a sua volta. Ela cozinha, digita no computador, fala ao telefone, nina o bebê, dá banho nas bonecas, lava o carro, molha as plantas. A criança que brinca leva consigo essas vivências para além do seu desenvolvimento.

Quando cresce um pouco, ela manipula materiais para que possa criar a partir dessas vivências que teve quando menor. Ela cria com materiais artísticos, com instrumentos musicais, com fantasias criando histórias. Ela cria para compreender o mundo e vai assumindo ao longo desse crescimento, um compromisso com o que está criando. E então, começa a se especializar em algumas coisas e vai encontrando formas mais potentes de se expressar. Ela pesquisa intuitivamente e vai ganhando mais autonomia, vai se aperfeiçoando, se aprimorando naquilo que gosta de fazer.

O ser humano que tem a oportunidade garantida de passar por todas essas fases do seu desenvolvimento de forma plena, segura e abundante; com certeza, tomará decisões seguras e certas para sua vida adulta. Trabalhará naquilo que ama. Criará sua própria profissão. Será um adulto não adaptado ao mundo, mas pronto para transformá-lo!!

Texto: Denise Pereira

Revisão: Nádia Abilel de Melo

Fotos: Arquivo pessoal Carolina Coronado

Carolina atua com Educação Infantil e nas séries iniciais com enfoque no livre brincar, vivências com a natureza e Cultura da Infância

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