Por Gabrielle Maise Adabo

Quase seis anos me separam do início da escrita do meu projeto de mestrado. Fico feliz em notar que, desde então, houve uma certa mudança em relação ao tema dos estudos de gênero. De um assunto que tinha a relevância o tempo todo questionada dentro da própria Academia, para hoje, na minha atuação profissional, me deparar com a demanda frequente por tratar temas ligados a gênero. 

Fiz o Mestrado em Divulgação Científica e Cultural no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) de 2015 a 2017. Meu tema de pesquisa foram as mulheres divulgadoras de ciência no Brasil. Queria entender, entre outras questões, a partir de que momento, como e em quais áreas elas começaram a fazer parte da divulgação da ciência no país, o que passava por compreender, também, a participação dessas mulheres na história como cientistas e jornalistas, principais profissionais responsáveis pela tarefa de divulgação.

Fazer uma pesquisa acadêmica é, ao mesmo tempo, querer abraçar o mundo e ter de lidar com o desafio de fatiá-lo em camadas bem finas que caibam na dissertação de mestrado e nos dois curtos anos de pesquisa. Eu tinha um universo de dados na minha frente: todos os anos de história da ciência brasileira e as milhares de mulheres profissionais que (para a nossa sorte) foram se multiplicando ao longo dos anos no país. Para dar conta disso tudo, da melhor forma possível, escolhi buscar pelas divulgadoras de ciência desde os primeiros registros de atuação das cientistas até o momento atual, na nossa ferramenta contemporânea de registro da atuação científica: o Currículo Lattes.

Se na etapa de levantamento da atuação das divulgadoras contemporâneas o maior desafio foi lidar com a infinidade de dados disponibilizados pela Plataforma Lattes (analisei mais de 2200 currículos de mulheres), na busca pelas divulgadoras pioneiras o desafio era o oposto: a ausência. Ausência que não significa um “não existir” ou um “não estar lá” e sim um não “estar visível”. Essa invisibilidade das mulheres na história é um desafio em muitas áreas do conhecimento, uma lacuna que precisa ser preenchida. Na história da divulgação científica brasileira, a bibliografia lida até então me mostrava apenas nomes masculinos como protagonistas nessa área.

Nesse sentido, diante dos limites já falados de uma pesquisa de mestrado, o que me ajudou foram os registros do projeto Pioneiras da Ciência, do CNPq e da Secretaria de Políticas para as Mulheres. Com a proposta justamente de visibilizar a atuação das mulheres na ciência brasileira, esse projeto disponibiliza textos com a biografia das pesquisadoras. Busquei pela atuação na divulgação científica nas trajetórias profissionais das 79 cientistas disponíveis nas seis edições do projeto, lançadas de 2013 a 2016. 

O resultado foi que, desse total, 26,5% das pesquisadoras tiveram alguma atuação como divulgadoras de ciência. São mulheres como Bertha Lutz, Heloísa Alberto Torres, Lucilia Tavares, Nise da Silveira, Maria Brasília Leme Lopes e Virgínia Leone Bicudo, das mais diversas áreas do conhecimento – biologia, sociologia, psicologia, medicina, entre outras – e com atuação na divulgação científica na mídia da época como jornais e programas de rádio, em instituições como museus e universidades e nos mais diversos tipos de materiais (livros e exposições, por exemplo).

Esses dados, além de outros registros bibliográficos, permitiram confirmar e registrar a importante atuação das cientistas pioneiras na divulgação científica brasileira.

Além da visibilidade das mulheres na história, outra questão que o desenvolvimento da pesquisa trouxe foi a do reconhecimento. Os dados que levantei apontavam para uma atuação maciça das mulheres na divulgação científica. Algumas pesquisas, inclusive, descreviam como sendo feminina a maior presença dentre os jornalistas de ciência. Dados do Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica, de 1978 a 2016, mostraram que 29 homens foram premiados e apenas 10 mulheres. Essa foi uma questão que excedeu os limites da pesquisa de mestrado, mas que ficou registrada: por que essa desigualdade entre os gêneros na premiação? Seria porque as mulheres se inscrevem menos para concorrer ao Prêmio? Por quê?

Esse para mim é o grande ganho da pesquisa acadêmica e dos estudos relacionados a gênero: a possibilidade de perguntar o porquê. Muitas coisas nas nossas vidas são tratadas como naturais ou dadas e é aí que se encerram as nossas possibilidades. Para mim, o grande divisor de águas foi o acesso à universidade e às ciências sociais (minha primeira área de formação). O estudo da antropologia, da sociologia e das ciências políticas e, dentro delas, os estudos de gênero como um campo de conhecimento, me mostraram o caráter de construção do social – e que tudo o que era construído, poderia ser desconstruído e reconstruído. 

Para mim, isso fez a diferença e transformou tudo o que eu viria a ser e fazer dali em diante. Não era mais possível enxergar qualquer aspecto da realidade sem considerar a igualdade de gênero, que está associada à de classe e de etnia/raça, e perpassa todos os aspectos e lugares da sociedade. Isso se tornou parte da minha trajetória profissional, acadêmica e pessoal. Ao longo do contato com outras mulheres que pesquisam gênero (e elas ainda são a maioria como pesquisadoras nessa área) percebi como os significados são produzidos em fios que vão tecendo uma longa teia, que nos une em nossas palavras escritas em textos como este e como as dissertações e teses acadêmicas. 

Falar de gênero para nós, mulheres, é falar de si e desconstruir e reconstruir nossa própria realidade. É também ter que provar em nossas pesquisas que, por falar de nós e por isso ter em nossos textos o subjetivo, não faltamos com o objetivo, que esses termos não se opõem e não se anulam, mas, sim, se complementam. Que talvez seja o momento de rever a tal “objetividade científica” construída sobre uma ausência do feminino.

Após enfrentar todos esses desafios na pesquisa acadêmica e vencer com a defesa do mestrado – tarefa que foi a mais difícil da minha trajetória até o momento, muito devido ao desafio de falar em público e por fazer valer a legitimidade de minha pesquisa diante desses questionamentos – fico feliz ao ser convidada para escrever um texto como este falando da pesquisa em gênero. Fico mais feliz ainda ao ver esse tema ganhando espaço, crescendo e transformando, sendo pauta de eventos, coletivos, projetos, na mídia, discutido dentro de organizações, sendo até mesmo pré-requisito obrigatório para financiamentos em projetos. Isso tudo traz a sensação de que o esforço valeu a pena, apesar de ainda termos um longo caminho a percorrer. 

Link para acessar a dissertação de mestrado da autora: http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/322811

Gabrielle Maise Adabo é mestra em Divulgação Científica e Cultural e especialista em Jornalismo Científico, ambos pelo Labjor da Unicamp. Possui graduação em Sociologia, Antropologia e licenciatura em Ciências Sociais pela Unicamp. Também é graduada em Comunicação Social – Jornalismo pela PUC-Campinas. Atuou como jornalista em jornais diários, revistas e assessorias de imprensa, na cobertura de diversas editorias. Atualmente é jornalista e pesquisadora na ONG International Energy Initiative – IEI Brasil.

Foto: Arquivo pessoal: Gabrielle Adabo

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