
Adriana Maria Tonini é uma mulher da Ciência, em todas as suas faces: na docência, na pesquisa, na extensão e na gestão. Hoje, responde pela Diretoria de Engenharias, Ciências Exatas, Humanas e Sociais (DEHS), no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), onde chegou em 2017. Doutora em Educação, pela Federal de Minas (UFMG), é mestre em Tecnologia e graduada em Engenharia Civil, também pela UFMG.
A diretora conta que seu despertar pela Ciência surgiu na graduação; porém, desde a infância, já se mostrava curiosa com os fenômenos da natureza e tinha grande interesse em entender o porquê das coisas. “Imaginava que seguiria a profissão de minha mãe e seria professora”. Na graduação, com a maturidade e contato com professores, com o conhecimento científico, com as metodologias e pesquisas, envolveu-se ainda mais com a Ciência e a possiblidade de ser cientista. “Eu fiz iniciação científica, fui monitora, fiz estágio na graduação, sempre estive envolvida com grupos de pesquisa. Tudo isso foi me motivando e vi minha vocação ser revelada”.
Ela lembra que a maternidade impactou numa ruptura na sua trajetória acadêmica (fato recorrente na vida de pesquisadoras que param entre 5 a 7 anos, durante esse período), mas que ela não considera como prejudicial à carreira; pois, “afinal, cabe à mulher o papel de gerar vidas e gerar, inclusive, outros cientistas. Vivi isso na minha vida, tive filhos, parei por um período, retomei; e, hoje, minha filha faz doutorado e segue a carreira acadêmica também”, comenta orgulhosa. Esse tema é tratado nesta entrevista.
Adriana Tonini foi docente por 10 anos, foi diretora e implantou o curso de Engenharia, no Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH). “A Universidade era bastante grande, tinha cerca de 15 mil alunos, com uma área de Saúde muito forte. Aí, montamos a área de Engenharias, Exatas e Tecnologias. O meu perfil de gestão vem desta época”. Atuou, também, na Federal de Ouro Preto, orientando a Iniciação Científica, projetos de extensão, coordenando vários projetos e, neste período, foi convidada para ir para o CNPq. “Estou no CNPq há cerca de quatro anos, vivenciando esse desafio que é muito grande, pois a Ciência precisa de muitos recursos e investimentos, porque o montante parece grande, mas os custos são sempre muito altos. Veja os custos de desenvolver uma vacina, por exemplo. Os nossos investimentos em C&T ainda são muito baixos. Investimentos cerca de 1% do PIB, enquanto outras nações destinam até 5% do PIB.”
Nesta entrevista, a diretora fala sobre investimentos na Ciência, participação das mulheres nas áreas STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics) e como ficam a pesquisa e, sobretudo, a educação básica, em tempos de pandemia do Coronavírus. Sobre a pesquisa, ela defende: “a Ciência não pode parar, a pesquisa não pode parar!” Já quanto ao ensino a distância na educação básica, ela não se esquiva: “esse vai ser um ano muito ruim para a educação. Vamos ter gerações perdidas em termos educacionais.” Confira todo o diálogo.
WASH: A Sra. é uma bem-sucedida acadêmica que assumiu papéis de gestão. O que é mais difícil no Brasil: ser cientista ou fazer a gestão da Ciência, sobretudo, em um órgão que precisa ter um olhar sobre a Ciência num país continental como o Brasil?
Profa. Adriana Tonini: Nas duas áreas existem dificuldades. Por um lado, estamos sempre procurando ampliar o orçamento. Esta é uma luta de todas as pessoas que estão na gestão de agências de fomento; e, por outro lado, fazer Ciência, muitas vezes, é enfrentar a falta de recursos. Então, se você me perguntar se é mais fácil fazer gestão no âmbito administrativo, eu respondo que sim, que é mais fácil. Como o CNPq tem uma estrutura para dar conta, com uma equipe muito qualificada, com mestres e doutores concursados − de alto nível, é fácil possibilitar que o pesquisador possa ter uma resposta imediata, que a gente possa lançar uma chamada, cumprindo prazos, e entregar respostas.
A demanda é sempre maior do que o recurso. Estar numa posição de gestão, num órgão como o CNPq, com a capilaridade do tamanho do Brasil, com todas as parcerias, com os vários segmentos, com os ministérios, com as fundações de amparo, com as parcerias privadas; demanda uma estrutura muito grande. Mas tudo isso dá muito trabalho.
WASH: A Sra. tem formação em Engenharia Civil, área notadamente masculina, assim como as demais áreas STEM. Como atrair mais mulheres para esses espaços?
Profa. Adriana Tonini: Quanto às carreiras de STEM, essas são áreas consideradas “duras”. Eu acho que se planta isso na cabeça da criança, que é uma área difícil; e, na realidade, temos que ver que são áreas como outra qualquer. Como temos a Literatura e a História, temos a Matemática e a Física. O problema todo está no processo do ensino-aprendizagem.
Talvez, a questão seja conscientizar nossos professores da Educação Básica para estarem mais preparados, para não fazer essa diferenciação das áreas da Ciência. Todas as áreas devem ser tratadas como Ciência. Soma-se, também, a isso, a questão da mulher não ter incentivo dentro da sua própria família. Eu sempre conversava com as poucas meninas da Engenharia e elas afirmavam que, quando diziam que escolheram essa área, havia o desestímulo familiar. E se a gente buscar mais a fundo, no início da infância, a gente vai ver que as meninas sempre recebem brinquedos do cuidar (para mais tarde cuidar da casa, da família, dos pais, dos irmãos, cuidar das crianças). Já para o menino, dá-se algo mais estimulante: um Lego, um quebra-cabeça. É preciso mudar isso, mudar desde os brinquedos, torná-los multidisciplinares para meninos e meninas. Não tem que ser bola para menino e boneca para menina.
A gente percebe que isso já mudou muito, mas as escolas têm esse papel fundamental de trabalhar com o lúdico, com o educativo, com kits de quebra-cabeça e informática, para estimular o cognitivo. Geralmente, em casa, a criança não vai ter estímulo. As políticas públicas têm que ser voltadas para desenvolver o cognitivo. Se isso acontece, a criança estará aberta a qualquer área do conhecimento. A escolha não deve esbarrar no gênero, e, sim, no gostar, no querer saber e no querer aprender. Assim, teremos uma sociedade muito mais evoluída.
WASH: A Sra. poderia fazer um resumo das iniciativas do CNPq na área de fomento para a participação das mulheres na Ciência, desde a infância?
Profa. Adriana Tonini: O CNPq atua por meio do Programa Mulher e Ciência desde 2005, em diversas frentes, buscando: 1) promover a reflexão, o diálogo e iniciativas nas questões de gênero; 2) estimular meninas para atuarem na área de Ciência, Tecnologia e Inovação; 3) garantir condições para que as mulheres não tenham prejuízos em seu percurso acadêmico, em função da maternidade; 4) dar visibilidade à trajetória de mulheres que se destacaram em suas áreas de atuação. Entre as ações de destaque, cito: “Pioneiras na Ciência” e as chamadas 18/2013 e 31/2018. É preciso destacar que, apesar das disparidades que ainda encontramos, há boas notícias! Além de sermos o País com o maior número de artigos de autoria feminina (junto com Portugal, conforme o relatório “Gender in the Global Research Landscape”, da Elsevier, 2017), nos últimos 20 anos, a proporção de mulheres que publicam artigos científicos cresceu 11% no Brasil e a proporção de mulheres “inventoras” no país subiu de 11% para 17%, entre 1996 e 2015. No CNPq, 44% das bolsas concedidas no Programa Ciência Sem Fronteiras foram para mulheres. Acredito que ainda exista um longo caminho para a plena participação feminina nas Ciências e Tecnologias e que somente tende a ser vencido com a instituição da paridade, entre mulheres e homens, em todos os níveis e espaços.
WASH: Quais são os principais desafios para que a C&T e Inovação ganhem destaque na sociedade e, também, na definição das políticas de um país como o Brasil, com necessidades básicas tão prementes? Como pode ser o diálogo entre essas necessidades e a questão da educação no ensino básico?
Profa. Adriana Tonini: Uma boa parte desta resposta foi abordada quando falamos sobre investimentos em C&T e a questão do PIB. Já em relação à questão básica, é possível incentivar a C&T, com a popularização da Ciência através das olimpíadas, das feiras de Ciência, da Semana da Ciência & Tecnologia, para que a criança tenha o contato com a Ciência. E, aí sim, a criança vai ter esse despertar da vocação para a Ciência. É fazer a aproximação da academia e a sociedade. A universidade tem como tripé o ensino, a pesquisa e a extensão. A extensão é um campo fértil para o diálogo com a educação básica, porque ela desenvolve projetos com a sociedade, como um todo.
WASH: Como a Sra. vê as perspectivas de financiamento do CNPq e o papel das emendas parlamentares, nesse cenário?
Profa. Adriana Tonini: As administrações têm lutado para garantir e ampliar nosso orçamento, bem como se aproximar não apenas dos parlamentares, mas de outras instituições, a fim de atrair mais recursos. O CNPq é uma agência de fomento de abrangência nacional que, apesar dos recursos limitados, tem trabalhado em cooperação (por exemplo, com as Fundações de Amparo à Pesquisa – FAPs), permitindo uma capilaridade que nenhuma outra instituição de fomento tem. Todos os recursos são bem-vindos, mesmo os de instituições privadas, governamentais ou não governamentais. O importante é fomentar a Ciência, a Tecnologia e a Inovação.
WASH – A gente sabe que há muito investimento do setor privado à Ciência e à Pesquisa em outros países, por que não existe essa tradição no Brasil?
Profa. Adriana Tonini: No Brasil, a grande parte dos recursos vem de investimentos públicos; enquanto há países que os recursos privados representam mais de 60%.
WASH: Como se muda isso?
Profa. Adriana Tonini: Só por meio de uma conscientização dos setores público e privado. Aqui, no Brasil, espera-se que o Governo dê recursos para o setor privado. Infelizmente, nós não somos um país que investe no desenvolvimento tecnológico como os EUA e a Alemanha. Lá, as empresas querem ajudar neste desenvolvimento. Aqui, a visão das grandes empresas brasileiras é de que o Governo deve dar incentivos. O CNPq tem tentado aproximar academia e empresas. Temos projetos com empresas como o Inova Talentos, por exemplo, que é um Programa de suporte à seleção, capacitação e colocação de profissionais egressos da academia no mercado de trabalho, para desenvolverem atividades de inovação no ambiente empresarial brasileiro; e o programa Agentes Locais de Inovação – ALI/SEBRAE, que visa operacionalizar o Projeto Agentes Locais de Inovação – ALI – via concessão de Bolsa, para apoiar profissionais e especialistas no desenvolvimento de atividades de extensão inovadora ou transferência de tecnologia.
WASH: Como fica o calendário das atividades científicas apoiadas pelo CNPq com a pandemia? O que se espera dos bolsistas e profissionais nesse momento e como o CNPq vem orientando esse público?
Profa. Adriana Tonini: A pesquisa não para. Questões relacionadas à pandemia, de acordo com a natureza da pesquisa, serão analisadas caso a caso. Orientações e informes têm sido publicados no site do CNPq. Nossas chamadas estão acontecendo normalmente. Nós lançamos a chamada PIBIQ (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica), a chamada de Bolsa de Produtividade em Desenvolvimento Tecnológico e Extensão Inovadora – DT; as chamadas de Mestrado e Doutorado acadêmicos para inovação e a Semana Nacional da Ciência e Tecnologia. Vamos lançar as chamadas de mostras e feiras científicas e de olimpíadas, entre outras. O trabalho continua. O calendário não alterou nada em relação ao ano passado. Os casos de pesquisadores que precisarem de análise, nós vamos analisar e, se necessário, dar prorrogação.
WASH: Como a Sra. avalia a questão da Educação a Distância para minimizar o impacto da suspensão das atividades escolares, nestes tempos de pandemia? Quais são as vantagens e desvantagens?
Profa. Adriana Tonini: Eu vejo que a EAD tem crescido no Brasil para um público mais maduro e que já vem sendo oferecida, há algum tempo, para o público de graduação, com os diversos cursos de licenciatura. Quem se propõe a fazer uma graduação à distância, já está preparado para isso, com computadores, por exemplo. Por outro lado, a escola que promove também está preparada. Não é só o computador, são necessários infraestrutura e todo um aparelhamento, com salas de videoconferência, treinamentos, entre outros.
Para a Educação Básica, no meio de uma pandemia, passar de uma educação presencial para uma educação a distância é muito complexo; principalmente, na educação básica pública, porque a maioria das crianças não tem internet e nem computador em casa. Não vive a mesma realidade de um aluno da educação privada, que tem computador em casa, um pai formado e uma biblioteca. Esse aluno tem a estrutura e os pais em casa para apoiar. Mas essa não é a realidade de 80% dos brasileiros. Vai ser um ano ruim para a educação. A alfabetização já é um problema sério no Brasil, porque existe a dificuldade da alfabetização para além do ler, uma dificuldade do interpretar.
Talvez uma forma híbrida entre o presencial e a distância funcionasse, mas eu não vejo isso. Eu acho que não está funcionando. As escolas de educação pública não estavam preparadas para isso e os professores também não estavam preparados para montar aulas em formato EAD.
WASH: Outro tema de seu interesse é a divulgação científica. A Sra. acredita que a comunicação da Ciência no Brasil precisa avançar mais, sobretudo, neste tempo em que vivemos a disseminação de informações não comprovadas cientificamente?
Profa. Adriana Tonini: Nós temos buscado fazer essa comunicação. As ações de divulgação que já temos: o Comitê de Divulgação Científica, olimpíadas científicas, feiras e mostras científicas, Semana Nacional de C&T, as chamadas de museus, entre outras. Mas, penso que a divulgação tem que ser mais explorada, porque a sociedade não tem noção da importância da Ciência; o que é você transformar uma pesquisa complexa numa linguagem para que a população entenda. Isso não é fácil. Há muito o que se fazer para que a sociedade entenda a importância da Ciência no contexto de nosso país.
WASH: O Programa WASH, que está sob gestão da sua diretoria no CNPq desde 2014, é fundamentalmente financiado por emendas parlamentares, as quais, agora, são impositivas. Como a Sra. avalia a importância de atração desse tipo de recursos para Programas do CNPq, para disseminação da Ciência?
Profa. Adriana Tonini: Na verdade, sempre existe necessidade de recursos para despertar o jovem para a pesquisa. E o WASH faz exatamente isso. Recursos são sempre bem-vindos, não apenas para a pesquisa, mas também para despertar esse interesse dos jovens.
WASH: Como a Sra. avalia a importância de iniciativas de divulgação e disseminação da Ciência por parte do CNPq? Como estas experiências podem estimular a adoção de carreiras de C&T entre os estudantes?
Profa. Adriana Tonini: Eu gostaria de destacar que tivemos chamadas de incentivo para as meninas em Engenharias, Ciências Exatas e Computação, em 2013 e 2018. Nós trabalhamos com as meninas desde o Ensino Fundamental até o Ensino Médio, para despertar a vocação para essas áreas do conhecimento. Essa chamada foi diferente, porque os projetos tinham que promover atividades diferentes nas escolas, não só palestras. A proposta foi mostrar o que era, na prática, cada área, e o que se faz na Química, na Física, levando Ciência para dentro das escolas, de modo a despertar, nos jovens talentos, a Ciência. Por exemplo, o que a Química pode fazer, mostrando-se um sabonete ou um detergente? Isso é criar a vocação. É preciso deixar a criança botar as mãos na massa, para ela se envolver e ver o que pode acontecer. É aí que ela pode começar a se interessar. Foram 69 projetos aprovados em todo o Brasil e chegamos em 350 escolas da Educação Básica pública. O Programa WASH faz bastante isso, trabalha com questões práticas, mostrando de fato que a Ciência pode ajudar a transformar.
WASH: A Sra. gostaria de complementar algum tema que não foi totalmente explorado? Fica aberto o espaço…
Profa. Adriana Tonini: Eu acho importante destacar que sempre devemos mostrar para a sociedade o que é a Ciência, para poder realizar atividades que despertem vocações para essa área e pensar numa nação desenvolvida, que só virá com investimentos em Educação.
WASH: Para finalizar, um tema em pauta, neste momento, é essa onda de negacionismo com a Ciência. Como trabalhar para combater isso? Qual o papel das escolas?
Profa. Adriana Tonini: A escola não tem que se preocupar em combater o negacionismo. Ela tem que mostrar a importância da Ciência para o desenvolvimento científico e tecnológico do país, para que uma nação possa gerar riquezas, produtos e serviços para a sociedade. A sociedade precisa entender o valor da Ciência (melhoria da qualidade de vida, avanços tecnológicos, combate às doenças…). É preciso ficar claro, por exemplo, que nós não podemos ter uma vacina, se não tivermos investimentos em Ciência. A Ciência não pode parar, a pesquisa não pode parar, porque quando aparece um problema como esse, os estudos precisam estar avançados para combatê-lo.
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Entrevista e edição: Denise V. Pereira
Fotos: Arquivo pessoal Profa. Adriana Maria Tonini – CNPq
Revisão: Nádia Abilel de Melo
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