Por definição, a Demografia é a área do conhecimento que estuda a dinâmica populacional. Três elementos principais, conhecidos como componentes demográficas, concentram grande parte dos estudos produzidos nesse campo: natalidade, mortalidade e migração. Fazendo uso de técnicas matemáticas e estatísticas e apoiando-se na interdisciplinaridade com diversas áreas das Ciências Humanas, como Sociologia, Antropologia, Ciência Política, entre outros, demógrafas e demógrafos são capazes de interpretar se as populações humanas estão aumentando, diminuindo ou mudando quanto à composição (etária, social, étnica, por exemplo). Compreender a evolução de taxas de mortalidade e natalidade e fluxos migratórios, de forma a delinear o passado e prever o que ocorrerá no futuro, são tarefas cotidianas desses profissionais.

Ana Carolina Bertho

Neste contexto, é inquestionável que a pandemia provocada pelo Covid-19 se caracteriza como objeto de grande interesse à Demografia. “Quantas mortes ocorrerão no Brasil em decorrência dessa doença?” está entre as perguntas que mais têm sido direcionadas aos estudiosos dessa área. E, mesmo diante da dificuldade de se elaborar uma resposta precisa, é possível fazer algumas reflexões que mostram porque nosso país está sendo afetado de forma única e porque a pandemia tende a aprofundar nossas desigualdades.

Em primeiro lugar, nunca fez tanto sentido dizermos que o Brasil tem “dimensões continentais”. O Covid-19 se espalhou primeiramente pelas capitais da região Sudeste, com destaque para Rio de Janeiro e São Paulo, e só depois de algumas semanas ganhou espaço nas demais capitais. Isso fez com que os estados e municípios vivessem a pandemia em tempos diferentes em relação aos locais onde foram registrados os primeiros casos. Se, por um lado, cidades mais afastadas dos grandes centros urbanos usufruíram de certa “proteção” durante os primeiros dois meses da doença no Brasil, por outro, também poderão enfrentar dificuldades de acesso a hospitais com leitos de UTI disponíveis para atendimento aos casos mais graves. Nesse sentido, as próximas semanas poderão ser dramáticas – a depender da capacidade de identificação rápida dos doentes que precisam ser hospitalizados, transporte e recepção dos mesmos em municípios com os recursos necessários.

Nas capitais e demais metrópoles brasileiras, a organização da população no território teve um papel crucial para facilitar a disseminação do novo coronavírus. Áreas densamente povoadas onde não se respeita o distanciamento social são vistas com grande preocupação não apenas por profissionais da área de saúde, mas também por gestores públicos. Além disso, em domicílios onde há maior concentração de moradores por cômodo, mais frequentemente há pessoas de várias gerações conviventes (avós, filhos e netos). Desde o início da pandemia sabe-se que a doença apresenta maior letalidade, ou seja, potencial de levar a óbito, para os idosos; e que crianças são mais propensas a apresentar o Covid-19 em sua forma mais amena ou mesmo assintomática. Portanto, o convívio entre avós e netos pode ampliar os riscos dessa doença para os mais velhos, especialmente se não respeitadas orientações básicas como lavar bem as mãos e usar máscaras adequadamente ao sair de casa. Outro aspecto que agrava os riscos em áreas com grande número de pessoas dividindo a mesma casa é que nesses locais, caso uma pessoa seja infectada, é mais difícil que seja feito o isolamento eficaz do doente, o que poderia resultar na contaminação de todos os moradores.

Há ainda a relação indissociável entre economia e saúde, que atua como agravante para esta pandemia. Para parte da população que tem empregos de nível médio ou superior, é possível ficar em casa e realizar as atividades laborais à distância, comprometendo minimamente (ou não comprometendo) os rendimentos mensais. No outro extremo, estão as pessoas desempregadas ou com empregos informais, à mercê do auxílio oferecido pelo governo federal, não raramente enfrentando dificuldades para receber o benefício e tendo que se expor em filas de banco por horas a fio. Neste grupo, estão também os trabalhadores de serviços considerados essenciais, como funcionários do comércio e, claro, entregadores. Cabe ressaltar que nesse caso pode haver acúmulo de vulnerabilidades: pessoas que neste momento não podem realizar suas atividades de trabalho a partir de suas casas muitas vezes precisam se expor no transporte público, têm contato com mais pessoas ao longo do dia e talvez vivam em áreas com muitos habitantes por quilômetro quadrado e em domicílios com mais moradores.

Neste artigo não serão detalhadas questões relacionadas às condições de saúde da população e ao atendimento prestado aos pacientes, propriamente. Sabe-se que o Brasil está realizando poucos testes para Covid-19 em comparação a outros países e que frequentemente tem sido noticiada a falta de leitos e equipamentos médicos, obrigando os profissionais de saúde a fazerem a difícil escolha de qual paciente será atendido. Na China e nos países europeus que enfrentaram a pandemia antes de nós, foi registrada a maior letalidade entre os idosos e pessoas com doenças preexistentes, como diabetes e hipertensão. Porém, no caso brasileiro, diante da superlotação nos hospitais, estão sendo registradas altas taxas de mortalidade também entre pessoas jovens e saudáveis, como resultado das dificuldades de enfrentamento da doença.

Finalmente, há uma tragédia silenciosa, que nem sempre resulta em óbitos, mas têm grande impacto social: a violência doméstica à qual principalmente mulheres e crianças estão sujeitas durante o período de isolamento. Insegurança, medo, dificuldades financeiras e dependência química são alguns fatores que potencializam a violência e tornam a própria casa, que deveria ser um ambiente seguro, um lugar ameaçador. Mesmo após a retomada das atividades normais, essa violência poderá deixar sequelas permanentes nas vítimas.

Diante dessas considerações, é difícil aceitar a ideia de que a pandemia afeta todos nós, brasileiros, indistintamente. As desigualdades se manifestam em diversos momentos, pois nem todos estarão expostos da mesma forma à doença; em caso de contaminação, nem todos terão o mesmo risco de morrer. Mas pode ter um efeito comum a todos: a sensibilização diante das profundas desigualdades econômicas, sociais e de gênero que permeiam nossa sociedade há séculos.

Ana Carolina Berto, jornalista e demógrafa, é mestre e doutora em Demografia pela Unicamp e especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor-Unicamp. Desde 2014, atua como pesquisadora e professora da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE-IBGE)

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